Caminhoneiros estão se viciando em cocaína, rebite e opiáceos

Cerca de 20% dos 11,5 milhões de condutores das categorias C, D e E usam drogas regularmente

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"A situação é muito grave porque a pressão de horário faz com que muitos apelem para o uso de drogas" - Foto: Eugenio Bortolon

Brasil de Fato – Rodolfo Rizzotto é um dos maiores estudiosos, pesquisadores e investigadores sobre questões do trânsito do Brasil. Sua vida é feita de muitas possibilidades, mas foi nesta área que encontrou o seu nicho e a sua paixão.

Mortes no trânsito aumentam, e Brasil não cumpre meta global de redução de acidentes

Ele é formado em Direito e Economia, com mestrado em Planificação em Roma. Desde 1987 atua também como jornalista especializado em trânsito. Tem centenas de artigos publicados, é autor de vários estudos sobre segurança nas estradas e dos livros: “Recall – O que as montadoras não contam” e “Acidentes Não Acontecem”. Criador da Revista das Estradas e editor do Estradas.com.br, ele também é coordenador do SOS Estradas e um dos fundadores da O Trânsito Amigo.

Rodolfo mora no Rio, mas circula pelo Brasil e mundo afora com obstinação pelo que vê e pelo que acontece no trânsito. Faz palestras por todos os lados e atende veículos de comunicação do Oiapoque ao Chuí sobre questões do trânsito.

“Os governos têm sido negligentes. Há um certo temor de combater a exploração dessa categoria”, afirma Rodolfo Rizzotto / Foto: Divulgação/Estradas.com.br

Tem três filhos, todos nos EUA (uma cantora em Los Angeles, Laura Rizzoto, presença constante no Youtube, Carolina, fotógrafa em Nova York, e Lucas, especialista em tecnologias das mais variadas tendências e plataformas no Vale do Silício). É filho de Walter Rizzoto, que teve longa passagem pelo RS, já falecido, e mãe da Letônia.

Sempre ligado em informação, de todas as áreas, principalmente da sua, Rodolfo vem se dedicando nos últimos anos a pesquisar e investigar as questões das drogas e os seus efeitos nas ‘tragédias’ que ocorrem diariamente nas rodovias brasileiras.

Confira as suas opiniões:

Brasil de Fato RS – Qual o grande problema do trânsito brasileiro nas estradas? Má condição das estradas? Ou excesso de carga de trabalho dos caminhoneiros?

Rodolfo Rizzotto – Os motoristas profissionais estão envolvidos em 50% dos acidentes com vítimas fatais. Portanto, as condições de trabalho desses condutores afeta diretamente a segurança viária. Além disso, existe uma cultura de impunidade no trânsito brasileiro, que estimula as imprudências nas rodovias.

No caso dos veículos leves os problemas mais frequentes são excesso de velocidade e ultrapassagens em locais proibidos. No caso dos veículos pesados é a péssima condição de manutenção e falta de fiscalização da jornada, velocidade e excesso de peso. Esses fatores somados a rodovias precárias, principalmente em regiões mais pobres do país, resulta em mais vidas perdidas.

Quando ocorrem as tragédias não existe responsabilização de quem explora esses profissionais

BdF RS – Como está a situação dos caminhoneiros com o uso excessivo de drogas para resistir longas jornadas? Há alguma fiscalização? Rigor? Exigências das autoridades?

Rodolfo – A situação é muito grave porque a pressão de horário faz com que muitos apelem para o uso de drogas. Podemos estimar que cerca de 20% dos 11,5 milhões de condutores das categorias C, D e E usam drogas regularmente.

Quando ocorrem as tragédias não existe responsabilização de quem explora esses profissionais. Sejam os donos da carga como os proprietários dos veículos.

Infelizmente, o exame toxicológico obrigatório para os condutores das classes C, D e E revelou que a droga mais utilizada é cocaína, com mais de 70% dos laudos positivos. Depois vem os opiáceos e num terceiro lugar o popular rebite, as anfetaminas.

Estão jogando os profissionais nas mãos do crime organizado

BdF RS – O governo, a Justiça, estão ampliando seu trabalho para melhorar a situação? Ou fazem vistas grossas e são permissivos?

Rodolfo – Os governos têm sido negligentes. Há um certo temor de combater a exploração dessa categoria. Na prática estão jogando os profissionais nas mãos do crime organizado. Em primeiro lugar pela dependência da droga. Em segundo, porque muitos são cooptados pelo crime organizado para transportar drogas, armas, munição, contrabando, dentro da carga legalizada ou escondida em fundos falsos, como já está ocorrendo nos ônibus.

Por outro lado, estimula uma concorrência desleal. Motorista que usa droga tira serviço do colega que não usa. Transportadora que explora os motoristas conquista o cliente de quem respeita as leis. Sem contar que, quando se envolvem com o crime organizado, transportando drogas, por exemplo, dentro da carga legalizada, aceitam receber menos pelo frete. O que contribui para baixar o valor do frete no mercado.

BdF RS – O transporte de drogas em ônibus piratas de países latinos para o Brasil com passageiros comprados é a “novidade” nesta área?

Rodrigo – Estão ocorrendo cada vez, com mais frequência, casos de ônibus com drogas, contrabando e outros ilícitos escondidos pelos motoristas ou até donos dos veículos. Há casos de viagens em que os passageiros só pagam a passagem no destino. Isso ocorre, principalmente, com bolivianos que embarcam e não sabem que fazem parte do disfarce do crime.

BdF RS – Este combate às drogas nas estradas que fazes pelo Brasil todo está dando resultados? Achas que este combate deveria ser feito também pelas autoridades?

Rodrigo – O exame toxicológico obrigatório na renovação, mudança de categoria, admissão nas empresas, tem contribuído para tirar do mercado parte desses condutores. Em março de 2016, quando o exame começou a ser exigido, tínhamos 13,2 milhões de condutores das categorias C, D e E. Atualmente são menos de 11,5 e deveriam ser algo em torno de 15 milhões (considerando o crescimento histórico entre 2011 e 2016).

Comparando o último ano sem exame (2015) com o primeiro em que foi aplicado na plenitude (2017), a redução dos acidentes com caminhões foi de 34% e com ônibus de 45%. Infelizmente, como o governo atual e o anterior têm protelado sempre a punição de quem não realiza o exame, os números começaram a aumentar novamente a partir de 2019 e pioraram ainda mais em 2023.

Tornamos infratores e potenciais assassinos do trânsito em celebridades

BdF RS – O que é preciso fazer para reduzir as mortes no trânsito urbano e rodoviário? Só campanhas resolvem?

Rodolfo – Hoje, as campanhas são uma grande ilusão. Elas têm efeito insignificante considerando que nas mídias sociais infratores e criminosos de trânsito postam vídeos andando em velocidades absurdas, participando de rachas nas rodovias, entre outras infrações.

Alguns desses influenciadores do mal têm mais de 30 vezes de visualizações dos seus vídeos do que o portal da Polícia Rodoviária Federal. Admitem que chegam a ganhar mais de R$ 200 mil por mês com a publicidade gerada, inclusive através da remuneração das plataformas, principalmente do Youtube.

Tornamos infratores e potenciais assassinos do trânsito em celebridades. Alguns têm mais de 1 milhão de seguidores e dão até autógrafo nos eventos. Por isso, a única forma de reduzir a violência no trânsito no curto prazo é aplicando a lei com o máximo rigor. Punir é uma forma de educar.

Edição: Marcelo Ferreira

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