‘Cheiro de morte, lama, desgraça e despreparo’: Enchente encontra pixo em edifícios da Capital

Em conversa com o Sul21, o pichador Garsa conta um pouco da rotina de quem protesta em frases pela região central

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Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Sul 21 – Uma nova onda de pichações no Centro de Porto Alegre conta com inscrições em tamanho grande, cada vez mais altas. Algumas carregam frases de protesto pela inoperância do governo frente às chuvas que encheram os rios e devastaram o estado. “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempo em tempo pelo mesmo motivo”, estampa o Anfiteatro Pôr do Sol. “Deixem-nos ocupar”, foi escrito num imóvel da Av. Mauá, onde as comportas sem manutenção falharam ao evitar a enchente que deixou centenas desabrigados. “Cheiro de morte, lama, desgraça e despreparo” são as palavras que aparecem na lateral de um edifício na Rua dos Andradas, fortemente afetada pelos alagamentos. Todas essas pichações vêm acompanhadas da assinatura de uma grife – como são chamados os grupos de pichadores – formada há cerca de um ano.

A frase “Tanta gente sem moradia com tanto prédio desocupado” já estava pichada com tinta branca no antigo prédio do INSS meses antes de o imóvel ser ocupado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em 8 de junho. A pichação começa no topo do edifício de 25 andares. Foi feita por um homem de 28 anos que assina Garsa, ou GRS, e que vai logo avisando: “não tenho a ver com nenhum movimento, nem com o MTST. Antes da enchente já tinha muita gente morando na rua”. Também levam a assinatura dele e da grife que Garsa integra, a Anti Social, outras pichações que surgiram recentemente pela cidade. O grupo vem se tornando um dos mais ativos quando o assunto é escalada de imóveis altos.Ocupação do MTST no Centro Histórico. Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Em conversa com o Sul21, Garsa conta que se considera um pichador há pouco tempo, cerca de dois anos. “Na minha visão, para ser um pichador mesmo, tem que viver a rua na madrugada. Entender as nuances dela, quando baixa o clima, quando o clima está tenso… Não é só pegar uma lata e riscar”, pondera. Ele já “riscava” em 2017, quando deixou de lado os protestos dos movimentos punk e black bloc, que já não eram tão combativos quanto antes. “Eu gastava minha energia, me dava adrenalina, eu sabia que estava lutando por uma coisa real. E isso não tinha mais. Então eu comecei a buscar em outra coisa. Comecei a riscar lá perto de casa, só que eu não entendia muito bem o que estava fazendo. Anos depois eu fui conhecer a pichação, então eu me tornei muito ativo”.

Pichação é algo visto por parte das pessoas como pura expressão do ego de quem faz. Garsa concorda que, na maioria das vezes, essa impressão reflete a verdade. Ele se confrontou com isso em uma conversa em que a outra pessoa trouxe à tona: “fala de pichação como protesto mas coloca só teu nome”. Foi pouco tempo antes de ele pichar o edifício do INSS. “Quando a gente subiu, num momento de reflexão em que eu estava fazendo o pixo, surgiu a frase na minha cabeça. Aí eu respirei mais ainda do que eu buscava antes, lá na época em que eu fazia protesto. Comecei a fazer mais frases e impactar dessa forma”.

Pichação no Anfiteatro Pôr do Sol. Foto: Bettina Gehm/Sul21

A ideia é se comunicar também com pessoas que não entendem as letras estilizadas da pichação, que tem como intuito justamente ser ilegível. “É conectar todo mundo naquilo, as pessoas perceberem o que realmente é o pixo. O pixo é protesto, é um pouco da essência dele e a minha essência ali também. A maioria das frases é da minha cabeça, me baseio no que alguém fala. Aquela frase fica batendo na minha cabeça, eu acabo escrevendo no whats pra mim mesmo e levo para a rua. Eu vejo que tem muito alcance, muitas pessoas compartilham. Acaba pegando pessoas que não estavam refletindo. De alguma forma, eu quero impactar socialmente”, explica Garsa.

Perguntado se a pichação precisa ter a intenção de protestar ou pode existir por si só, Garsa diz que também enxerga como um “movimento artístico periférico, de se inserir e ser notado de alguma forma” quando não se é visto por ninguém. “Falando um pouco sobre ego, essas pessoas têm visibilidade e aceitação – todo mundo quer e procura isso”, diz. “O grafitti tende a excluir mais as pessoas porque tem que ter um financeiro, sabe? Tem que ter dinheiro para comprar diversas cores. Na pichação, muitas vezes se rouba a lata, ou a gente usa o preto fosco automotivo, ele é mais barato”.

Mas, segundo o pichador, a atividade também é um vício: “É uma adrenalina que vicia. Cada vez tu quer mais – depois que tu picha e sabe que aquilo é um crime, a adrenalina é muito maior do que fazer uma coisa que é autorizada. Acho também que, se a pichação não for crime, ela vai parar de existir. E ela também nunca vai deixar de ser crime”.

Pichação no Instituto de Artes da UFRGS. Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Se a pichação causasse apenas um questionamento, seria o de como se faz para escrever aquelas letras tão alto. “Tem que viver e aprender na pele para saber como sobe. Tu só vai aprender quando fizer parte, não tem uma explicação”, responde Garsa. Em seguida, tenta dar um exemplo: “Tu fica com os braços [segurando algo] tipo uma barra, joga as costas para trás. A outra pessoa, de alguma forma, sobe nas tuas costas e tenta buscar a janela de cima, ajudando um ao outro. Às vezes tem escalada solo, em vários tijolinhos do prédio”.

No edifício da Previdência Social, Garsa e outro pichador, Tagstão (assina TGST), levaram cerca de três horas para subir, pichar e descer. Foi preciso escalar o prédio por fora até acessar uma das janelas. “É quase uma escadinha de concreto, mas ela vai quebrando, é apavorante. Não se consegue escalar sem fazer assim: eu subo, o outro joga uma corda, puxa, depois o outro sobe. Foi assim que aconteceu ali”, relata Garsa.

Quando saíram, já era dia claro – escaparam por pouco de serem detidos, pois o segurança do local viu o grupo e chegou a acionar a polícia. Garsa não explica como fugiram antes do efetivo chegar, mas diz que a fuga é rotina para quem picha. “A polícia chega, a gente corre, fica um tempão se escondendo”.

Garsa não picha sozinho: é o fundador de um grupo que atua em conjunto. “O que a gente tem é uma grife”, explica. “Sabe a Nike? Junta várias pessoas que representam a Nike. A grife é isso. A nossa é a Anti Social, são seis pessoas que representam ela. Às vezes a gente faz o símbolo da grife, às vezes não”. Esse símbolo é o desenho de um ninja, que aparece em várias pichações.

“Eu queria fazer parte de alguma coisa mas não sabia como. Tentei me incluir em algumas grifes e não deu certo, por ideologia ou por estilo de vida, ou eu só não sentia que fazia parte daquilo. Acabei pensando em criar uma coisa que me inclua, que seja uma característica minha. Eu não sei se sou antissocial, mas eu não gosto de multidão. Não gosto de estar no meio de muitas pessoas ou com as pessoas erradas”, afirma o pichador.

A Anti Social existe há cerca de um ano e já se espalha pelas ruas de Porto Alegre, principalmente no topo de prédios. Primeiro, Garsa começou a riscar com o pichador Bastar, que assina Exageros (EXGS). Também entraram para o grupo Credus (CRDS), MGA, UFOS e Tagstão (TGST), que integrava a grife paulistana Os + Fortes.

“O que temos em comum é a amizade. Cada um tem os seus princípios, mas a gente se embasa pelos mesmos. No fundo, a gente gosta de pichar”, resume Garsa. “Não colocamos dentro da grife quem bate em mulher, rouba, trafica. Tem que saber muito bem a índole das pessoas, e por isso Anti Social: a gente dá rolê entre a gente”.

Pichação na Av. Mauá. Foto: Isabelle Rieger/Sul21

A pichação de protesto não é novidade, embora venha chamando atenção com as inscrições recentes da Anti Social. Mas essa cena teve duas perdas recentes em Porto Alegre: morreram no final do ano passado e no início deste ano Caroline Pivetta (Susto’s) e Pixel, mulheres que abriram caminho num espaço majoritariamente masculino.

Carol, como era conhecida a pichadora que invadiu a Bienal de São Paulo em 2008 ao lado de Cripta Djan (Os + Fortes), morava no Rio Grande do Sul desde 2010. As pichações reivindicando “pague a pensão” ao lado de algum nome masculino são dela, além de grandes letreiros da grife Susto’s no topo de construções.

Foi Carol quem influenciou Garsa no mundo do pixo. “No início, eu não tive muito apoio das pessoas. Tive que virar amigo, ficar ouvindo como se faz, e depois aprender na rua. A Carol me chamou para bastante rolê, me passou a visão de quem é quem na rua”, diz ele. “A pichação não abraça tanto pessoas novas, tem que ir pelo teu sentimento. Ou aquilo te motiva ou te faz desistir”.

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