Dois meses depois da enchente, animais resgatados vivem situação limite nos abrigos do RS

Mais de 15 mil cães e gatos aguardam um lar; aglomeração gera surtos de doença infectocontagiosa em alguns abrigos

0
Feira de adoção de animais no Shopping Total busca aumentar número de cães adotados. Foto: Isabelle Rieger/Sul21

Sul 21 – Em mais de 300 abrigos por todo o Rio Grande do Sul, ainda há 15.419 animais que foram resgatados durante a enchente que atingiu o Estado. O governo Leite retrocedeu na proposta de conceder auxílio financeiro a quem adotasse um cão ou gato. A Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado (Sema) informou que o governo está se reunindo com entidades da proteção animal e da Medicina Veterinária para apresentar uma nova proposta de incentivo à adoção responsável dos animais em abrigos. A proposta anterior, criticada por ONGs e protetores de animais, previa pagar R$ 450 por animal adotado.

Dos mais de 15 mil cães e gatos ainda sem um lar, 4.247 estão em Porto Alegre. Parte deles participa de uma feira de adoção, organizada pela Prefeitura e por ONGs no estacionamento do Shopping Total desde o último sábado (29). A meta é doar mil animais até o final da feira, dia 29 de julho.

“Já foram doados cerca de 120 animais nos primeiros quatro dias de feira”, comemora a voluntária Fernanda Leite, da ONG Cão da Guarda. No entanto, já ocorreram duas devoluções. “Uma de uma cadela adulta, porque ela fez as necessidades no lugar errado, e outra de um filhote que não se adaptou em apenas doze horas com os outros animais”, relata.

A voluntária critica a proposta do governo de pagar por adoções. “A ideia de recolher os animais, tratar e doar, é eles terem uma boa família e uma boa alimentação – com condições financeiras. Toda a proteção é contra fazer o pagamento para as pessoas adotarem os animais. As pessoas precisam ter condições financeiras de adotá-los. A gente não vai tirar os animais do lugar de vulnerabilidade e devolvê-los a um lugar de vulnerabilidade, ainda pagando para a pessoa recebê-lo”.

A antiga proposta é criticada inclusive pela Prefeitura da Capital. “Não incentivamos valores para adotar. A adoção, além de um ato de responsabilidade, tem que ser um ato de amor, não um negócio rentável e sem fiscalização posterior”, afirma em nota o Gabinete da Causa Animal.

Os animais que não forem adotados na feira organizada pela Prefeitura voltarão aos abrigos onde se encontram – alguns deles sem condição alguma de oferecer longa permanência. A situação e possíveis alternativas foram debatidas nesta quinta-feira (4), em uma audiência pública na Assembleia Legislativa coordenada pela deputada Luciana Genro. As prefeituras de Canoas e de Porto Alegre – as duas cidades no topo do ranking de animais abrigados – foram convidadas para a reunião, mas não enviaram representantes.

Na audiência pública desta tarde, a promotora de justiça Annelise Steigleder, que vem atuando nos abrigos de animais, compartilhou sua preocupação com a sustentabilidade dos locais no médio e longo prazo. “Os abrigos foram constituídos no improviso, como não podia deixar de ser naquele momento tão dramático. Mas agora, passados dois meses do início das enchentes, temos que avançar para políticas públicas mais permanentes, que possam fomentar a adoção desses animais”, afirmou.

Uma situação limite, é assim que Annelise define o estado atual dos abrigos. “Eu vejo as voluntárias do Centro Vida, que é um abrigo com o qual eu mantenho bastante contato, elas estão realmente numa situação de muita dificuldade com a escassez de voluntários. E começaram a aparecer também os custos relacionados à manutenção desses espaços, com contas de luz e água que estão chegando. Agora estamos vivendo uma situação dificílima, que é o surto de cinomose [uma doença infecciosa que atinge os cães] em muitos abrigos. São situações inéditas para todos – embora eu seja promotora de justiça na área ambiental há muitos anos, nunca trabalhei com essa magnitude de dificuldade”.

Mesmo diante da catástrofe, apenas 66 municípios gaúchos solicitaram, ao governo federal, recursos do chamado rito sumário para proteção animal. A informação foi compartilhada na audiência pública pela diretora do departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente, Vanessa Negrini. “Sempre que acontece uma emergência, nós temos recursos que são transferidos sem burocracia. O município afetado pela emergência, pela situação de calamidade, solicita esse recurso e só depois de 30 dias precisa prestar contas. Depois de 60 dias, apresenta o plano de trabalho”, explicou.

Os recursos foram distribuídos em três faixas de valores: R$ 50 mil reais para municípios de até 45 mil habitantes, R$ 90 mil para municípios maiores e R$ 180 mil para municípios acima de 100 mil habitantes. “São valores menores justamente porque o recurso é liberado sem o plano de trabalho, ele é emergencial para depósito e disponibilização rápida”, explicou Vanessa.

“Se todos os municípios afetados, em situação de emergência, tivessem solicitado esses recursos, o montante disponibilizado para causa animal no Estado seria da ordem de mais de R$ 22 milhões. Para vocês terem uma ideia do tamanho desse recurso, seria suficiente para castrar 80 mil animais”, ressaltou a diretora.

O Grupo de Resposta a Animais em Desastres (GRAD Brasil), que vem atuando desde o início da tragédia no Rio Grande do Sul, foi representado na audiência pública pelo médico veterinário Enderson Barreto. “Aqui, nós temos uma demanda muito superior à capacidade de resposta de todos os homens”, pontuou. “O momento do resgate é só a pontinha do iceberg. Agora nós estamos vivenciando o volume de animais nos abrigos. Com os animais aglomerados, começam os surtos das doenças infectocontagiosas e vem à tona a questão da falta de políticas públicas para a causa animal. Nós temos um comprometimento de ficar aqui pelo tempo que for necessário durante emergência, mas já temos visto que muitas ações precisam de fato ser assumidas pelo poder público”, disse o veterinário.

O GRAD já se reuniu com o governo junto de outras entidades, como o santuário Voz Animal, o Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC) e o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, para propor medidas alternativas à concessão de benefício financeiro em contrapartida para adoções. “Para incentivar a adoção, podemos assistir a essa pessoa que adotou um animal com o atendimento médico veterinário por um tempo, possa garantir um protocolo vacinal desse animal, possa garantir os itens de necessidade básica que não pudessem ser usados como permuta. Que a gente não trate o animal como objeto, mas, sim, como um ser de direito que merece e deve ser respeitado, e ter acesso fundamental a itens de necessidade básica”, elencou Enderson.

Por: Bettina Gehm – bettinagehm@sul21.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui