Filme ‘Olha pra Elas’ narra o impacto familiar dramático da prisão de mulheres

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Brasil tem a terceira maior população carcerária feminina do mundo. Foto: Divulgação/Panda Filmes

O sistema prisional é um local em que boa parte da sociedade brasileira prefere nem saber como funciona ou o que acontece lá dentro. A ideia punitivista sempre esteve em alta no País, ao mesmo tempo em que ativistas pelos direitos humanos são há tempos taxados de “defensores de bandidos”. Tatiana Sager e Renato Dornelles pensam diferente. Ambos jornalistas, a dupla se dedica há cerca de 10 anos ao tema do encarceramento no Brasil. 

Da parceria nasceu o documentário Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil, o curta-metragem O poder entre as grades, baseado no aclamado livro Falange Gaúcha, de Dornelles, e a série Retratos do Cárcere. Quando um dos episódios da série tratou do sistema prisional feminino, Tatiana teve um estalo. Durante o processo de filmagem, percebeu que a realidade do encarceramento feminino é muito diferente do masculino – que tão bem havia sido mostrado no filme sobre o presídio Central de Porto Alegre.

Assim nasceu o projeto do filme Olha pra Elas, produzido pela Panda Produções, que terá pré-exibição na próxima terça-feira (28), na Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana.

A obra aborda a temática do aprisionamento feminino, trata da questão de gênero, a feminilização da pobreza, a situação de abandono no cárcere, a realidade de crianças que vivem com a mãe na prisão e, principalmente, a desestruturação destas famílias. Atualmente, o Brasil tem a terceira maior população prisional feminina do mundo, na maioria constituída por mulheres pobres, negras ou pardas, e com baixa escolaridade. Do total de mulheres presas, 2/3 são mães, 57% têm mais do que um filho e muitas são as únicas responsáveis pelo sustento da família.

O perfil das mulheres presas impactou a jornalista e diretora, principalmente a questão da maternidade. Se nas prisões masculinas escutas obtidas pelas autoridades policiais revelam homens falando de crimes e dando ordens para “os negócios”, nas penitenciárias femininas o principal assunto é saber como e onde estão os filhos. 

“Quando ela vai presa, a família se desestrutura completamente. É bem diferente do encarceramento masculino”, pondera Tatiana.

Olha pra Elas é um filme sobre pessoas e suas histórias. A separação dos filhos das mães (muitas vezes mães-solo ou com filhos de diferentes parceiros) se confunde com as razões que costumam levar essas mulheres à cadeia. O envolvimento com o tráfico de drogas é a principal razão, não raro sendo consequência da relação com o namorado ou marido – que por sua vez, a abandona após a prisão. 

Segundo o governo estadual, atualmente não há nenhuma criança com sua mãe dentro das penitenciárias do Rio Grande do Sul. Em todo o Brasil, cerca de 1.500 mulheres estão presas com seus filhos. O tempo de permanência varia de estado para estado: em alguns a mulher pode ficar com o filho até completar seis meses de amamentação; em outros o tempo pode chegar até o bebê completar um ou dois anos de idade. Fora da cadeia, as crianças são entregues aos cuidados de parentes, amigos ou até mesmo para abrigos. Presas, muitas mulheres nem sequer recebem visitas de seus filhos simplesmente por não haver quem os leve.

“A mulher é invisível no encarceramento”, define a jornalista e realizadora do documentário. Tal invisibilidade cria histórias absurdas, como a da mulher que nasceu na prisão e, depois de adulta, foi presa estando grávida, já tendo outro filho, por furtar carne e mamadeira no supermercado. “São mulheres que estão abandonadas. Os parceiros não as visitam, abandonam completamente. Até uma mãe que tem filho e filha na cadeia, visita só o filho.”

Envolvimento com o tráfico é a principal causa do encarceramento feminino. Foto: Divulgação/Panda Filmes

Vendo em perspectiva, ela avalia que o novo filme é bem diferente de Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil. Olha pra Elas é um “documentário dramático”, enquanto o anterior é narra a história do sistema prisional. A dramaticidade da nova obra deve-se justamente a vida dessas mulheres. Para Tatiana, são mulheres “sequestradas” pelo Estado.

“É um filme que me emociona cada vez que assisto. A maioria são mulheres abusadas, estupradas e depois, com filhos, são violentadas de novo pela falta de apoio Essa é a maioria da população carcerária que está presa, não são assassinas. É um ‘sequestro’ de mães pelo Estado. É muito brutal para a mãe e para o filho”, afirma a jornalista e cineasta.

A exibição da próxima terça-feira (28) na CCMQ faz parte de uma ação das secretarias de Sistema Penal e Socioeducativo, Cultura e Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, encerrando as atividades alusivas ao mês da mulher. Após a exibição, será realizado um debate, com a participação de Tatiana e Renato Dornelles, a professora Christiane Russomano Freire (UCPEL), mediado por Mônica Kanitz, coordenadora da Cinemateca Paulo Amorim.

A entrada será mediante doação de materiais de higiene destinados às apenadas. As senhas serão distribuídas a partir das 19h.

O filme será lançado em maio e Tatiana comemora a oportunidade da pré-estreia e das exibições que tem sido autorizada a fazer pelo governo estadual nas penitenciárias do RS. Olha pra Elas já foi exibido no Presídio Estadual Feminino Madre Pelletier, em abril será mostrado na penitenciária de Guaíba, depois em Rio Pardo e assim seguirá por outros presídios femininos.

Acima de tudo, Tatiana deseja que a obra sirva para as pessoas entenderem como funciona o sistema carcerário feminino. “Acho importante que a sociedade veja essas condições.”

Fonte: Sul 21 – Por: Luciano Velleda

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