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De Olho na Ideia

De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos

17/07/2025 18h38
Por: Júlio Santos
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A elite econômica ocidental contemporânea vive uma crise profunda de sentido. Embora detenha poder financeiro e influência institucional, carece de referências intelectuais, estéticas e morais que sustentem sua legitimidade. Essa ausência de perspectiva gera um ciclo de embrutecimento e autojustificação, que não apenas compromete sua própria subjetividade, mas também contamina a classe ascendente, que busca nela modelos de sucesso. O resultado é uma elite que se rasga por dentro, devora seus próprios fundamentos e revela, paradoxalmente, sua incapacidade de liderar com mérito.

A elite atual opera sob uma lógica pragmática e tecnocrática, na qual o sucesso é medido por resultados financeiros e não por valores éticos ou culturais. Sem uma narrativa espiritual, filosófica ou estética, ela se vê diante de um vazio que não pode ser preenchido por consumo, influência ou dominação. Esse vazio não tem preço, não é mercadoria e exige um trabalho profundo da subjetividade — algo que a elite, em sua formação pragmática, evita.

Para escapar do confronto com a própria angústia, a elite recorre à coisificação das relações humanas e à concorrência direta como forma de autoafirmação. As pessoas são transformadas em instrumentos e o meio ambiente em produto. Essa lógica gera uma cultura de meritocracia tóxica, na qual o valor pessoal depende da performance e da dominação. A elite, ao justificar seus erros embrutecedores como virtudes, transforma agressividade em liderança, indiferença em objetividade e entra em um ciclo de reafirmação compulsiva que reforça sua desconexão ética.

Ao tentar justificar seu modus operandi, a elite acaba por devorar a si mesma em um movimento antropofágico. Ela consome seus próprios valores de cultura, ética e responsabilidade, transformando tudo em recurso. Essa autodevoração gera uma espécie de estupidez, na qual vínculos são superficializados, afetos instrumentalizados e decisões desumanizadas. A elite torna-se prisioneira de sua própria lógica, incapaz de romper o ciclo sem abdicar de seus privilégios.

Sem um objetivo claro, a elite bate em um teto financeiro: tudo funciona, mas nada basta para ela. A onipotência financeira, antes símbolo de poder, dissolve-se em ansiedade e repetição. O dinheiro, que deveria ser meio, torna-se fim e revela, paradoxalmente, a ausência de mérito real para liderar. Ao se confrontar com o fato de que o essencial não pode ser comprado, a elite entra em crise existencial.

A elite contemporânea manifesta traços de uma psicopatologia coletiva: narcisismo estrutural, ausência de culpa, desconexão empática e dissociação ética. Essa condição gera uma forma de governo de sujeitos com traços psicopáticos, que exercem poder sem consciência moral. A elite não apenas domina, mas o faz de forma autodestrutiva, sem projeto de sociedade, sem escuta do outro e sem vínculo com o humano.

Dentro da elite, há uma divisão entre dois modelos de referência: uma elite intelectualizada, com capital simbólico, senso estético e compromisso ético — que é minoria — e outra elite embrutecida, despolitizada, ostentatória e agressiva, que representa o modelo dominante e seduz a classe média com poder e consumo. A classe de novos ricos, sem filtros críticos, tende a imitar esse modelo grosseiro, eclipsando a elite cultural e perpetuando a lógica da coisificação e do parasitismo.

A elite econômica ocidental vive uma doença de falta de sentido que compromete sua capacidade de liderar, inspirar e construir futuro. Sem compromisso ético, ela se torna máquina de acumulação, não agente de transformação. O dinheiro, longe de legitimar, revela sua fragilidade simbólica. A saída exige ruptura e reconexão com o humano, cultivo da interioridade, valorização do simbólico e reconstrução do coletivo. Sem isso, nossa elite continuará a se devorar e a arrastar consigo os que a seguem.

 

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