
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
O professor João Cezar de Castro Rocha pesquisou as táticas da extrema direita no Brasil e desvendou os métodos usados para criar a polarização e os conflitos que estão rasgando a sociedade brasileira ao meio.
Professor de história e literatura, intrigado com o andamento e a eficiência da comunicação de grupos extremistas, foi ler Olavo de Carvalho para entender como a Cambridge Analytica, uma empresa que trabalha com algoritmos e espelhamento de interesses dos usuários de redes sociais, realizava sua persuasão.
Entre os diversos modelos de interferência, ele pesquisou a forma como o discurso de ódio é elaborado e reproduzido para captar a mente de pessoas menos desenvolvidas intelectualmente.
As pessoas que não possuem senso crítico são, geralmente, incapazes de perceber que estão sendo alienadas e induzidas a tomar decisões que podem prejudicar a si próprias. Essas pessoas, que ignoram as armadilhas do ódio, são estimuladas a desenvolver uma certa raiva de temas relacionados a costumes e, por não terem conhecimento sobre eles, mantêm distância de qualquer assunto que os aborde.
Um desses temas é a educação sexual infantil, que nada tem a ver com a sensualização de crianças ou com relacionamentos envolvendo kits gays ou “mamadeiras de pirocas”, mas trata de biologia, higiene, respeito à intimidade, funcionamento dos órgãos reprodutores e diversas questões de saúde, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência, entre outros assuntos.
Para estimular o ódio, junta-se uma tese imaginária, como a do “kit gay” — que nunca existiu — à educação sexual, que existe. Isso dá certa credibilidade ao discurso de ódio e faz com que pessoas que ignoram a importância da educação sexual infantil pensem: “estão ensinando indecências nas escolas”. Naturalmente, isso cria pânico, pois a escola deveria ser um lugar de segurança, e não de depravação.
A pessoa ignorante, que não consegue distinguir o certo do errado, fica angustiada e desenvolve um mecanismo de defesa da família, gerando ódio aos professores, à escola e às instituições. Para ela, a ira é justificada, pois está defendendo aquilo que considera mais importante: seus filhos. Mesmo depois de descobrir que a situação não era como diziam, muitas pessoas continuam a cultivar aquele ódio e a acreditar no discurso inicial.
Se forem criadas diversas narrativas nesse sentido, em várias frentes — como religião, tributos, imigração e outros temas — constrói-se uma enorme carga de ódio que, em algum momento, tende a vir à tona.
A polarização política é alimentada por esse sistema, e quanto mais polarizada for uma sociedade, mais estressada ela se torna, criando um redemoinho que suga as pessoas para discussões, litígios, inverdades, ressentimentos e violências.
Quando uma sociedade chega a esse ponto, ainda existe uma encruzilhada que pode decidir seus rumos. As pessoas podem retomar suas consciências e escolher o caminho da construção do diálogo e da coerência, ou apostar na divisão induzida. Em um caso, a sociedade sai ganhando; no outro, ganham os polarizadores.
Sensação
Vento
Umidade