
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Mataram muitas pessoas na Chacina da Penha, no Rio de Janeiro. Ninguém sabe quantos eram traficantes, quantos eram bandidos ou contraventores. Os corpos foram enfileirados para reconhecimento pelos familiares.
Depois do Carandiru, onde morreram 111 detentos, agora morreram mais de 130 pessoas em uma das favelas da periferia do Rio, em mais uma operação contra o narcotráfico — que ninguém sabe onde está nem de onde vem.
As pessoas não questionam os acontecimentos, não tentam aprofundar o assunto e nem procuram razões mais coerentes que justifiquem ações dessa envergadura. Foram 2.500 homens da polícia que mataram 130 pessoas, e houve a morte de quatro policiais.
A primeira pergunta que deveríamos fazer, com honestidade, é sobre quem são os verdadeiros chefes do tráfico e onde eles moram. A ideia que se tem é a de que os “traficantes” moram nos morros, quando, na verdade, os que moram lá e se escondem são, no máximo, o braço armado das milícias e do tráfico — aqueles que fazem o “trabalho sujo” para os bicheiros, os traficantes, os donos de máquinas caça-níqueis e outros tipos de contraventores.
Os que realmente lucram com as mais variadas práticas ilícitas estão nos apartamentos à beira-mar, e não naquelas ruelas sujas, inóspitas, úmidas e insalubres que vimos nas imagens das favelas.
As mortes dão a sensação de que está acontecendo um “combate ao narcotráfico”, mas nenhuma estrutura de grandes narcotraficantes é desmontada, nenhuma rede de corrupção que permeia todas as instituições — desde delegacias até a polícia militar — é exposta.
Geralmente, persegue-se um nome, um representante do narcotráfico que só ocupa esse papel para levar a culpa, pois foi contratado para isso: ser o executor dos mandamentos dos verdadeiros chefes. Às vezes, esses verdadeiros chefes são os próprios que mandam matar seu funcionário para “dar uma satisfação à sociedade” e limpar a própria imagem.
Há uma série na Netflix que fala sobre tudo isso, chamada Os Donos do Jogo. Ali percebe-se que quem morre está sempre na favela, nos bairros, nos subúrbios — e quem manda matar está quase sempre em um gabinete ou em um apartamento de luxo.
É uma ficção que mostra, de forma romanceada, aquilo que acontece no submundo do poder, deixando claro que as decisões do crime não acontecem nos bairros, nas favelas ou nas zonas periféricas. As periferias são atacadas, geralmente, para mostrar força e tentar iludir a população de que está acontecendo um combate à ilegalidade.
A alegação principal é a de que, na Penha, está instalada a cúpula do Comando Vermelho e, por isso, a invasão foi tão letal e com tantos “efeitos colaterais”. As cenas dos próximos capítulos deveriam mostrar quantos eram da facção do Comando Vermelho e quantos faziam parte de organizações de resistência civil e de construção de consciência.
Seria muito interessante ver 2.500 homens armados invadindo prédios e condomínios de luxo da orla do Rio de Janeiro, prendendo os verdadeiros narcotraficantes — os patrões dos traficantes e milicianos das periferias. Seria intrigante se, nesses locais, fossem mortas vítimas civis que não fizessem parte do narcotráfico — e os policiais e o governador dissessem que eram “efeitos colaterais” ou parte do inevitável combate contra o crime.
Sensação
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