
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Embora a prisão de Bolsonaro tenha maior repercussão no atual cenário político polarizado, é ainda mais relevante — para o país e para a democracia — a prisão de militares que foram coniventes com a tentativa de golpe. A tentativa de ruptura institucional é um ato gravíssimo, muito distante do que alguns discursos tentam minimizar ao construir narrativas que justificam ataques à ordem democrática.
Golpistas apenas tentam o golpe; quando o concretizam, deixam de ser golpistas e tornam-se governo, institucionalizando a violência contra o Estado de Direito. Foi o que se viu em 1964, quando as Forças Armadas, após consumarem o golpe, passaram a chamá-lo de “Movimento de 31 de Março”, sustentando um discurso de patriotismo e negando a evidente ruptura institucional — narrativa amplamente difundida pela mídia da época.
A história registra episódios emblemáticos de ruptura. Em 46 a.C., Júlio César atravessou o Rio Rubicão em afronta às leis civis de Roma, desencadeando a tomada militar da República. De maneiras diferentes, essa lógica se repetiu no Brasil ao longo das décadas: setores das Forças Armadas atravessaram seu próprio “Rubicão”, mantendo esquemas de tutela sobre o Estado e defendendo seus privilégios e influência no orçamento público — quase sempre à custa da democracia.
O 8 de janeiro de 2023 não foi diferente. Parte do Exército, habituada a tratar a população civil como subordinada, tentou mais uma vez impor sua vontade pela força. Não teve êxito, entre outros motivos, pela falta de competência estratégica dos articuladores, pela fragilidade intelectual dos envolvidos e pela resistência de oficiais de alta patente com maior senso de responsabilidade institucional.
A prisão de militares golpistas representa um marco histórico no fortalecimento da democracia brasileira. É uma demonstração de maturidade das instituições, uma reafirmação da Constituição e uma contenção simbólica do poder político das Forças Armadas — reduzindo sua influência e delimitando seu papel dentro da ordem republicana.
Cabe agora aguardar que o Exército assimile o revés e amadureça para uma nova realidade, na qual soberania, respeito às instituições e harmonia entre os Três Poderes prevaleçam, sem que o reacionarismo militar retorne em forma de revanche. Se Júlio César atravessou o Rubicão e não foi punido, talvez este momento — em que a Justiça determina a prisão de militares golpistas — seja uma compensação histórica da civilidade em defesa da democracia.
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