Sua história se confunde com a própria trajetória de transformação de Tenente Portela. Quando chegou ao município, encontrou uma realidade predominantemente rural, com grandes áreas de terra ainda ocupadas por lavouras e comunidades formadas por famílias que viviam do trabalho no campo. Foi nesse cenário que construiu sua vida, primeiro trabalhando com o irmão e, depois, constituindo sua própria família e adquirindo a terra onde permaneceu por décadas.
Entre lembranças de trabalho, convivência comunitária, produção de alimentos e costumes preservados até hoje, como a fabricação artesanal de melado, Olindo também carrega histórias de alegrias e de perdas. A família, os filhos e a agricultura ocupam lugar central em seu relato, assim como a memória de um dos momentos mais dolorosos de sua vida, a perda de um filho aos 25 anos.
Aos 91 anos, mesmo morando há cerca de 15 anos na cidade, ele mantém a ligação com a propriedade e continua visitando a antiga terra. Nesta entrevista da série Nossa Terra, Nossa Gente, Olindo Parolin relembra sua infância, a chegada a Tenente Portela, os 42 anos vividos na Manchinha, o trabalho na agricultura familiar, a formação da família, as transformações do município e os ensinamentos que considera importantes para as novas gerações.
Folha Popular – Para começarmos, senhor Olindo, quando e onde o senhor nasceu?
Olindo Parolin – Eu nasci no dia 19 de junho de 1935, na comunidade de São Pedro, então pertencente ao município de Santo Augusto.
FP – Como foi sua infância e a vida junto com a família?
Olindo – Quando meus pais saíram de Santo Augusto e foram morar naquela região, eu fiquei um tempo por lá. Éramos dez irmãos, sete homens e três mulheres. Hoje somos quatro vivos, dois homens e duas mulheres. Eu estudei até a quinta série. Com 13 ou 14 anos parei de estudar e comecei a trabalhar. Trabalhei com meus irmãos e depois com a família do Wolfgang Loff, em Campo Novo, na Vila Turvo.
FP – Antes de vir para Tenente Portela, o senhor já trabalhava na agricultura?
Olindo – Sim. Eu cuidava dos porcos, tirava leite e fazia aquelas coisas da agricultura. Morei um tempo com meus irmãos e ajudei no trabalho da propriedade. A vida era simples, mas a gente trabalhava.
FP – E quando o senhor chegou a Tenente Portela?
Olindo – Vim em 1955. Cheguei no dia 2 de junho, para trabalhar com meu irmão, que já era professor aqui. Vim numa carrocinha de burro emprestada e cheguei às 3 horas da tarde. Vim sozinho.
FP – O que o senhor veio fazer em Tenente Portela?
Olindo – Vim para trabalhar com meu irmão. Ele tinha comprado um pedacinho de terra. Minha paixão naquela época era ir para o Exército, mas não deu certo. Então fiquei mesmo na roça. A agricultura acabou sendo o trabalho da minha vida.
FP – Como era Tenente Portela naquela época?
Olindo – Era muito diferente. Por aqui era quase tudo roça. O bairro Fries, por exemplo, onde eu moro agora, era área de agricultura. Tinha pouca coisa construída. A gente pouco vinha para esses lados porque tudo era mais afastado. Hoje está tudo cheio de casas e mudou muito.
FP – O senhor chegou a morar como agregado antes de comprar sua própria terra?
Olindo – Sim. Depois que casei, em 1963, morei alguns anos como agregado. Em 1968 comprei a terra na Manchinha. Ali tinha bastante trabalho para fazer, estava tudo velho e precisava ser arrumado. Fiquei 42 anos morando na Manchinha.
FP – Foi ali que o senhor construiu grande parte da sua trajetória na agricultura familiar?
Olindo – Foi. Praticamente toda a minha vida trabalhei na agricultura. A gente plantava, criava animais e fazia de tudo um pouco. Era o trabalho da família. Desde o primeiro ano também entrei na comunidade e na sociedade da Manchinha, no Alto Alegre.
FP – Como era a comunidade naquela época?
Olindo – Tinha bastante gente. Cada um pegava um pedaço de terra e trabalhava. Tinha tantas famílias que a prefeitura precisou aumentar a escolinha por causa da quantidade de alunos. Meu irmão também ensinou lá. Era uma comunidade bastante movimentada.
FP – O senhor se casou em 1963 e teve três filhos. Como foi formar sua família?
Olindo – Nós tivemos três filhos, mas um faleceu. Primeiro veio o Miro, depois a menina, a Sandra. A chegada dos filhos foi uma grande alegria. Quando eu era mais jovem, a vida era difícil e a pobreza quase não dava muita alegria, mas a família trazia felicidade.
FP – Quais são algumas das lembranças boas que o senhor guarda daquela época?
Olindo – Quando eu morava em Santo Augusto, tinha bastante amigo. Aos domingos a gente saía, jogava futebol e se divertia. Depois veio o Miro, veio a menina, e os filhos foram trazendo outras alegrias para a vida.
FP – E qual foi o momento mais triste da sua vida?
Olindo – Foi quando faleceu o meu filho. Essa foi uma das coisas mais tristes da minha vida. Até hoje a gente não esquece.
FP – O que aconteceu com ele?
Olindo – Ele tinha 25 anos. Nós entramos em um projeto de fruticultura com a Cotrijuí. Houve uma feira em São Paulo, em Limeira, e eles convidaram o pessoal para participar. Eu tinha viajado antes e incentivei ele a ir para conhecer. Ele serviu o Exército e foi. Ficou uma semana e voltou diferente.
FP – Como foi esse período depois que ele retornou?
Olindo – Ele começou a ficar triste, não tinha mais vontade de trabalhar. Nós procuramos médicos e fomos até Santa Maria. Durante um tempo parecia que estava melhorando, mas depois entrou em depressão. No fim, ele acabou tirando a própria vida. Ele tinha feito 25 anos naquele ano.
FP – Essa perda ainda é uma lembrança muito presente para o senhor?
Olindo – É. Esse foi o fato que mais me marcou em Portela. Não sai da minha cabeça. Foi muito difícil para toda a família.
FP – Depois de tantos anos vivendo na agricultura, quando o senhor deixou a Manchinha?
Olindo – Fiquei 42 anos lá. Em 2011 vim morar aqui. Já faz uns 15 anos. Mas toda semana ainda vou para lá. O Miro continua cuidando das coisas lá.
FP – Mesmo morando na cidade, o senhor ainda acompanha atividades da propriedade?
Olindo – Sim. O Miro cuida e eu ainda vou lá. A gente continua ligado à terra. É difícil deixar uma vida inteira de uma hora para outra.
FP – Uma das atividades tradicionais que a família ainda mantém é a produção de melado. Como é esse trabalho?
Olindo – Primeiro tem que cortar a cana, depois moer no engenho para tirar o caldo. O caldo vai para o tacho, onde fica fervendo. Tem que mexer e deixar dar o ponto. De oito latas de caldo fica aproximadamente uma. Depois tem que coar e continuar mexendo até ficar pronto.
FP – É um trabalho que exige bastante conhecimento e paciência?
Olindo – Sim. Tem que acompanhar o fogo, mexer e saber o ponto. É uma atividade que a gente aprendeu fazendo.
FP – Olhando para trás, o senhor considera que a agricultura foi a principal atividade da sua vida?
Olindo – Praticamente toda a minha vida. Trabalhei na roça desde novo. Foi dali que veio o sustento da família. A gente trabalhava muito, mas era o que tinha e também era a nossa vida.
FP – O senhor acompanhou uma grande transformação de Tenente Portela. Como vê a cidade atualmente?
Olindo – A cidade cresceu bastante. Onde hoje tem casas, antes era roça. Nós construímos muita coisa ao longo dos anos. Quando eu cheguei, era tudo muito diferente. Hoje está tudo cheio, muito mais desenvolvido.
FP – E o que o senhor gostaria de deixar como conselho para os mais jovens?
Olindo – Honestidade em primeiro lugar. Eu admiro muito a pessoa honesta, correta. Tem que ser sério, não mentir, não enganar os outros e ser transparente.
FP – O senhor tem netos e bisneto. Como é ver a família crescendo?
Olindo – Tenho três netos, duas netas e um neto, e um bisneto. Eles moram por aqui. É uma alegria ver a família seguindo.
FP – Aos 91 anos, o senhor ainda mantém uma rotina bastante ativa. O que a idade ensinou ao senhor?
Olindo – A gente já viveu bastante coisa. Ainda vou para a propriedade toda semana. A memória ajuda bastante. Às vezes a gente larga alguma coisa e depois não sabe onde colocou, mas isso acontece.
FP – Depois de uma vida inteira de trabalho, família, alegrias e também perdas, como o senhor define a sua história?
Olindo – Foi uma vida de muito trabalho. Trabalhei praticamente toda a vida na agricultura, criei a família e acompanhei o crescimento de Portela. Tive alegrias e tive tristezas, principalmente pela perda do meu filho. Mas a gente continua.
FP – Para encerrar, o que o senhor gostaria que ficasse registrado sobre sua passagem por Tenente Portela?
Olindo – Que a gente sempre procurou trabalhar e viver com honestidade. É isso que eu acho importante deixar para os mais novos.
Sensação
Vento
Umidade