
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Não podemos medir a capacidade crítica da humanidade pela produção de seus grandes pensadores. Os intelectuais sempre foram uma ínfima minoria, tão poucos que podem ser praticamente nomeados um a um ao longo da história. Considerando que cerca de 70 bilhões de pessoas já viveram na Terra, estima-se que apenas entre 7 mil e 10 mil possam ser classificadas como “grandes pensadores” — indivíduos cujas reflexões mudaram a forma de compreender o mundo, promoveram descobertas científicas, filosóficas ou espirituais e deixaram marcas permanentes no desenvolvimento humano.
Esses números, ainda que aproximados e baseados em estimativas produzidas por inteligência artificial, traçam um panorama claro do percurso cognitivo da humanidade. Eles demonstram que a maioria esmagadora das pessoas que já nasceram e morreram ao longo dos últimos 2.700 anos viveu sem acesso ao conhecimento, sem tempo ou condições para desenvolver senso crítico, e distante do exercício pleno da razão.
Hoje, com uma população de 8 bilhões, aplicando os mesmos critérios, teríamos aproximadamente um grande pensador para cada 7 milhões de indivíduos. Isso significaria algo entre 1.100 e 1.200 pessoas no mundo com capacidade intelectual verdadeiramente capaz de alterar paradigmas ou enfrentar, com profundidade, as grandes questões da vida.
Se retirarmos 1.200 grandes pensadores desse total de 8 bilhões, restam 7.999.998.800 pessoas. Este número, ainda que simbólico, reflete a dimensão da ignorância humana histórica — ignorância não apenas no sentido de desconhecimento, mas da ausência de acesso às ideias, reflexões e descobertas que moldaram a civilização. E reforça que grande parte desses pensadores sequer foi conhecida em vida.
Essa constatação tem um propósito: demonstrar que, durante a maior parte de sua existência, a humanidade viveu imersa na escuridão. Sem acesso ao saber, sem instrumentos para desenvolver pensamento crítico, e condicionada a agir conforme os interesses, ordens e crenças de seus líderes. Ao longo dos séculos, multidões trabalharam e guerrearam movidas não pela razão, mas pela necessidade de sobrevivência e pela condução daqueles que detinham poder.
Grandes pensadores como Sócrates, Platão, Kant e Hannah Arendt advertiram sobre o perigo da ignorância:
“Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”
“Existe apenas um bem: o saber. E apenas um mal: a ignorância.”
“A ignorância é falta de autonomia intelectual, e o esclarecimento é o caminho para a liberdade.”
“A ignorância não é inocente; é perigosa, cúmplice, destrutiva.”
A ignorância não significa apenas ausência de conhecimento, mas ausência de consciência, de crítica, de vontade de compreender. Esses alertas permanecem atuais: onde há ignorância, há risco para a liberdade, para a ética e para a própria humanidade.
Hoje, porém, assistimos a algo ainda mais grave: não apenas a persistência da ignorância, mas a confluência entre ignorância, desinformação e radicalização. Um encontro perigoso, volumoso e acelerado que ameaça formar um verdadeiro tsunami de desorganização social.
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