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Internacional

Rússia–Irã–China: todos por um, e um por todos?

Embora talvez ainda não esteja claro para Washington, uma guerra dos Estados Unidos contra o Irã será vista como uma guerra também contra a Rússia e a China. Tanto Vladimir Putin quanto Xi Jinping sabem que a guerra de Donald Trump está diretamente ligada às transformações globais que eles vêm conduzindo em conjunto.

10/04/2026 13h11Atualizado há 6 meses
Por: Júlio Santos
Pepe Escobar, jornalista e analista geopolítico: Flickr / Brasil 247)
Pepe Escobar, jornalista e analista geopolítico: Flickr / Brasil 247)

Pepe Escobar é colunista do The Cradle, editor geral do Asia Times e analista geopolítico independente com foco na Eurásia. Desde meados da década de 1980, ele vive e trabalha como correspondente internacional em cidades como Londres, Paris, Milão, Los Angeles, Singapura e Bangcoc. É autor de inúmeros livros; seu mais recente é Raging Twenties.

Rússia e Irã estão na linha de frente do processo de integração eurasiática — talvez o desenvolvimento geopolítico mais importante do início do século XXI.

Ambos são membros de destaque do BRICS+ e da Organização de Cooperação de Xangai (SCO). Também atuam como líderes do chamado “Sul Global”, buscando a construção de um mundo multipolar. Além disso, assinaram, no final de janeiro em Moscou, uma parceria estratégica abrangente.

A segunda administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece ignorar esses fatores, adotando novamente a política de “pressão máxima”.

Diante da escalada retórica, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia buscou reequilibrar o discurso, afirmando que Moscou, ao lado de Teerã, não aceitará ameaças externas de ataques às infraestruturas nuclear e energética do Irã, defendendo soluções negociadas.

Posteriormente, a narrativa em Washington mudou. O enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, Steven Witkoff, passou a falar em “construção de confiança” e resolução de divergências, indicando a possibilidade de negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano.

Essa mudança ganhou força quando Trump anunciou uma possível reunião com autoridades iranianas, confirmada depois por Teerã. O chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que participará de negociações indiretas em Omã.

Ainda assim, a postura de Trump é considerada volátil e imprevisível.


Os detalhes do eixo Rússia–Irã–China

Especialistas russos apontam que o acordo entre Rússia e Irã não é uma aliança militar formal, mas um roteiro para ampliar a cooperação em diversas áreas.

O tratado foi concebido como resposta às sanções e pressões do Ocidente. Ele prevê cooperação em segurança, defesa e inteligência, especialmente diante de ameaças externas.

Entre as regiões estratégicas destacadas estão o Mar Cáspio, o Cáucaso do Sul, a Ásia Central e o Oriente Médio.

Já a relação entre Rússia e China é ainda mais sólida, baseada em uma parceria estratégica abrangente, sem necessidade de tratado formal.

O chanceler chinês Wang Yi destacou princípios como cooperação, não alinhamento militar e ausência de confronto direto.

Exemplo dessa cooperação foi a realização de exercícios navais conjuntos entre Rússia, Irã e China no Golfo de Omã.

Apesar disso, analistas afirmam que não se trata de uma aliança formal como a OTAN.


Tensões e cenário global

Especialistas destacam que Rússia e Irã compartilham visões diplomáticas semelhantes, como o fortalecimento de relações com o Oriente.

Enquanto isso, a política externa dos Estados Unidos continua pressionando o Irã, apesar de avaliações internas indicarem que o país não está desenvolvendo armas nucleares.

Há também especulações de que Washington tenta negociar com Moscou para isolar Teerã — algo rejeitado por autoridades russas.

Ao mesmo tempo, o Irã tem acumulado experiência para lidar com sanções, compartilhando esse conhecimento com a Rússia.


Possíveis desdobramentos

Analistas consideram que uma guerra contra o Irã teria consequências globais graves, incluindo:

  • Bloqueio do Estreito de Ormuz
  • Disparada no preço do petróleo
  • Impactos severos na economia mundial

Diante disso, cresce a percepção de que negociações diplomáticas ainda são o caminho mais viável.

Rússia, Irã e China teriam inclusive desenvolvido um roteiro conjunto para tratar da questão nuclear iraniana, baseado em:

  • Diálogo
  • Não escalada de conflitos
  • Redução de pressões
  • Construção de confiança
  • Retorno ao acordo nuclear (JCPOA)

Esse plano foi discutido em reuniões recentes entre os três países.


Conclusão

Para Rússia e China, o Irã é um parceiro estratégico essencial. Qualquer tentativa de mudança de regime em Teerã pode alterar profundamente o equilíbrio geopolítico, afetando projetos estratégicos e a estabilidade regional.

Enquanto isso, líderes como Vladimir Putin e Xi Jinping devem continuar discutindo o cenário global e possíveis respostas às tensões internacionais.

O futuro dependerá do equilíbrio entre confronto e diplomacia em um cenário cada vez mais multipolar.

Fonte:The Cradle

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