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Urgência e emergência: médica do HSA fala sobre rotina, prevenção e sinais de alerta

Elaine Marcucci de Alcântara destaca os principais atendimentos do setor, a importância da capacitação profissional e os cuidados para evitar o agravamento de problemas de saúde

19/09/2026 18h36Atualizado há 1 semana
Por: Júlio Santos
Foto: Júlio Santos/FP
Foto: Júlio Santos/FP

Na série de entrevistas com profissionais que atuam no Hospital Santo Antônio (HSA), o Folha Popular conversa com a médica Elaine Marcucci de Alcântara, responsável pelo setor de urgência e emergência. Com 14 anos de formação em Medicina e quase uma década de atuação no HSA, ela fala sobre a rotina do pronto atendimento, os principais casos recebidos, a importância da capacitação dos profissionais e os cuidados que a população deve ter para evitar o agravamento de problemas de saúde.

Folha Popular - Elaine, para começar, conte um pouco sobre sua formação em Medicina e sobre o início da sua trajetória profissional.

Elaine Marcucci de Alcântara - Estou formada há 14 anos, sou clínica geral e estou aqui no hospital há quase 10 anos. Atuo no setor da emergência, sou capacitada em atendimento de parada cardiorrespiratória e no atendimento de pacientes com trauma. Hoje também sou pós-graduada em endocrinologia. Sou responsável pela urgência e emergência do Hospital Santo Antônio, coordenadora do setor da emergência e também diretora clínica do hospital.

FP - A senhora atua há muitos anos na área de urgência e emergência. O que levou a escolher essa área da Medicina?

Elaine - Essa pergunta é difícil. Na verdade, eu fiz Medicina para ser cirurgiã-obstetra e acabou que a vida me levou a começar a trabalhar em emergência. Hoje eu adoro essa área.

Atuo nessa área há praticamente 14 anos e gosto muito de paciente grave, porque a gente lida com uma adrenalina muito grande. E atende todos os casos, tudo que for necessário. A gente faz o primeiro atendimento de um pronto-socorro, todos passam por nós.

FP - Como é a rotina de um médico que trabalha no setor de urgência e emergência e precisa tomar decisões rápidas diante de diferentes situações?

Elaine - A gente tem uma rotina bem desgastante. Os plantões geralmente são das 7 da manhã às 7 da noite e das 7 da noite às 7 da manhã.

Desde o momento em que a gente entra no plantão, já tem que começar a tomar decisões. Primeiro, verificar os equipamentos que estão disponíveis, caso chegue alguma situação grave. Esses equipamentos têm que estar em bom funcionamento. E a gente tem que pensar muito rápido, porque um segundo faz diferença.

Tem que estar preparado para tudo. Para paciente politraumatizado, paciente acidentado. Aqui na nossa região a gente tem muitos acidentes nas rodovias e também muitos acidentes com maquinário agrícola. No período de frio, temos muitos pacientes infartados. Então, a gente abrange praticamente todas as áreas.

FP - Quais são os principais tipos de casos e sintomas que chegam ao pronto atendimento?

Elaine - Aqui é bem sazonal. Depende do período.

No inverno, aumenta muito o fluxo de doenças respiratórias e cardiovasculares. Temos infarto, AVC, os derrames. Durante todo o ano, principalmente nos períodos mais quentes, temos muitos pacientes politraumatizados, acidentes de trânsito e acidentes de moto.

São esses pacientes que representam uma demanda maior.

FP - O Hospital Santo Antônio atende um número expressivo de pacientes e também recebe pessoas de diferentes municípios. Qual é o volume de atendimentos registrado e qual é a participação de Tenente Portela nessa demanda?

Elaine - Nos últimos oito meses, de 1º de janeiro até 31 de agosto, tivemos aproximadamente 20.176 atendimentos somente na emergência.

Desses atendimentos, cerca de 10.200 são de Tenente Portela. Então, é praticamente a metade, na verdade um pouco mais da metade.

No último mês, por exemplo, tivemos uma média de 2.780 atendimentos. Desses, aproximadamente 1.300 foram de pacientes de Tenente Portela.

A gente tem uma demanda muito grande de atendimentos de Portela, obviamente porque o hospital está aqui. Os municípios da região também têm uma participação importante e a gente atende pessoas de diferentes lugares.

FP - Esse volume também mostra uma demanda importante de atendimentos que poderiam ser resolvidos na atenção básica. Como isso interfere no funcionamento da emergência?

Elaine - A gente observa uma demanda muito grande de saúde básica vindo para cá. Em grande parte, a população não quer ir ao posto. Outros dizem que foram, mas a gente sabe que não foram. Outros relatam que, às vezes, acabou a ficha. E vêm direto para cá.

Isso, por um lado, é ruim no serviço de urgência e emergência. Por quê? Porque esses pacientes que poderiam estar sendo atendidos lá estão tomando o tempo de um paciente grave, de um paciente que poderia se agravar.

A gente já teve paciente que chegou aqui com uma pressão de 25 por 15 e até uma mulher que chegou com 30 por 24. A chance dessa mulher fazer um AVC com essa pressão é muito alta. Então, eu preciso agilizar o atendimento dessa mulher, que às vezes espera mais porque tem uma coisa que poderia estar sendo resolvida no posto. Já está quase no AVC.

Isso não é um problema pontual de Tenente Portela. No país inteiro é assim. Mas aqui a gente observa isso. E a gente atende, sim, a população de Portela.

FP - Quais sinais e sintomas devem fazer com que a pessoa procure imediatamente um serviço de emergência?

Elaine - Paciente com dor no peito, paciente que está com a pressão alta, um paciente que tenha febre acima de 39 graus, um paciente que apresentar perda de força, perda da fala, pacientes que apresentarem síncope, desmaios, ou falta de ar intensa devem procurar imediatamente o serviço de emergência.

FP - Infarto e AVC estão entre as situações em que o tempo é fundamental. Quais são os principais sinais que a população precisa saber reconhecer?

Elaine - No infarto, precisa perceber uma dor no peito. Geralmente não é uma dor reta, mas pode irradiar para o membro superior esquerdo. Essa dor pode ir para as costas, para o pescoço, acompanhada de uma sensação de sufocamento.

No AVC, geralmente há perda de força de um dos lados, a boca fica mais torta e podem surgir distúrbios da fala.

FP - A senhora possui formação em ACLS e PALS, voltados ao atendimento avançado de adultos e crianças. Qual é a importância desses treinamentos para quem atua em emergência?

Elaine - É muito importante porque existe uma metodologia nesses treinamentos.

O ACLS e o PALS, que a gente chama de AVALS, são basicamente a mesma coisa, com a diferença de que um é para criança e outro para adulto. A gente aprende a otimizar o tempo na hora de uma parada cardiorrespiratória.

Na nossa sala vermelha temos um algoritmo em que seguimos parâmetros que orientam a intercalar a massagem cardíaca e o uso da adrenalina na hora adequada.

Esses cursos também orientam a observar os sinais e sintomas de um AVC, porque o tempo é muito importante. Na criança, a gente também verifica a maneira como será feita a massagem e como será feita a ventilação.

Então, esses treinamentos fazem com que a gente, de uma maneira coordenada, siga um fluxo que salva a vida.

FP - A automedicação e o hábito de adiar uma consulta ainda são comuns. Quais problemas podem surgir quando a pessoa procura atendimento somente depois que os sintomas já se agravam?

Elaine - O paciente vem muito mais grave. Uma simples gripe que não foi bem tratada pode evoluir para uma insuficiência respiratória. Esse paciente pode precisar ser entubado, por exemplo.

Então, é importante saber o momento em que devemos procurar o pronto-socorro. Mas também é importante saber quando procurar o posto de saúde.

O que acontece muito, não só aqui, mas em todo o país, é que temos uma demanda muito grande de pacientes que deveriam procurar o posto de saúde. É uma pessoa com uma simples dor de garganta ou uma dor nas costas que já existe há anos.

Esse paciente tem que procurar o posto de saúde. Quando ele procura a emergência e acaba lotando o setor, eu demoro para atender um paciente com AVC, um paciente com hipertensão ou um paciente com infarto, porque eles estão ali. A gente faz uma triagem, mas, nessa situação, acaba ficando um paciente grave no meio desses.

FP - A senhora já concluiu uma pós-graduação em Medicina de Urgência e Emergência. Por que a atualização e a busca por novos conhecimentos são tão importantes para o profissional que atua nessa área?

Elaine - É muito importante porque as coisas mudam. Diariamente, as coisas evoluem.

Para você ter uma ideia, eu fiz o ACLS em 2012, logo depois que me formei. Naquele momento, o ACLS tinha uma metodologia. Antigamente se falava muito em entubar cedo o paciente numa parada, por exemplo.

Hoje, o novo ACLS já preconiza a massagem. Chegou-se à conclusão, por meio de estudos, que uma massagem eficaz é muito mais importante do que entubar esse paciente.

Então, anualmente são feitos estudos. Essa capacitação é feita a cada dois anos. Tem que ser aperfeiçoada. Você precisa fazer a cada dois anos para conseguir manter a certificação, justamente por causa dessas mudanças.

FP - Para finalizar, que orientação a senhora deixaria para a população sobre prevenção, reconhecimento dos sinais de alerta e o momento certo de procurar atendimento médico?

Elaine - É importante que as pessoas prestem atenção aos sinais iniciais. Aquilo que for quadro menos grave deve ser levado, no primeiro momento, ao posto de saúde.

É importante fazer os exames de rotina adequadamente, tanto o homem quanto a mulher. Todo mundo.

Não ficar somente na farmácia. Uma coisa é você tomar um paracetamol para uma gripe, uma dipirona para uma febre. Outra coisa é pegar um antibiótico, uma medicação e depois só chegar para nós quando a situação está grave.

Então, é muito importante a prevenção antes de qualquer sintoma. A gente percebe que os pacientes só chegam quando já estão mais graves ou acabam vindo para cá sem procurar o atendimento primário.

É muito importante fazer essa prevenção.

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