Na série Nossa Terra, Nossa Gente, o Folha Popular conversa com o professor Vendelino De Carli, que dedicou grande parte de sua vida à educação e acompanhou de perto diferentes momentos da história de Tenente Portela.
Folha Folha Popular - Vendelino, para começarmos, conte um pouco sobre sua infância, sua família e onde o senhor nasceu e cresceu.
Vendelino De Carli - Eu nasci em 1945. Minha mãe morava aqui em Portela, mas foi para Itapiranga para eu nascer. Foi de carrocinha, a cavalo, passou pelo Uruguai e atravessou de caíque. Quando nasci, havia um padre chamado Vendelino e meu padrinho também morava em Itapiranga. Acabaram colocando meu nome em homenagem ao padre.
Depois, minha mãe voltou e fomos morar perto do cemitério. Foi ali que me criei até os 18, 19 anos.
A gente vivia da agricultura. Tínhamos vaca de leite, plantávamos milho e soja e criávamos porcos. Procurava-se ter uma alimentação mais pura, com aquilo que era produzido em casa.
Eu tinha nove anos quando comecei a lavrar com arado de boi. Não conseguia nem erguer os cabos. Entrava embaixo e colocava os ombros para levantar o arado, de tão pequeno que eu era.
Éramos dez irmãos. Alguns já faleceram e os outros foram embora para Matelândia, no Paraná. Aqui em Portela, atualmente, estou sozinho.
Também estudávamos à noite. O ginásio funcionava onde hoje é o Centro Cultural. Depois fiz o segundo grau e comecei a trabalhar como professor.
FP - E como surgiu essa ligação com a educação?
Vendelino - Eu tinha feito o técnico em contabilidade e não pensava em ser professor. Como havia pouca gente formada, o padre Albino Busato foi até nossa casa e perguntou se eu não queria dar aula.
Comecei no Grupo da Sede. Depois de dois anos, o prefeito Elcides José Salamoni me chamou para coordenar o ensino no município. Tivemos algumas diferenças e ele disse que iria me mandar embora. Respondi que não precisava me mandar, que iria para uma escola. Fui trabalhar na Linha Glória.
FP - Como eram aqueles primeiros anos dando aula no interior?
Vendelino - Lecionei três anos. Muitas vezes ia a pé. Dava aula à tarde e também à noite para adultos. Saía ao meio-dia e voltava às dez da noite.
Depois cheguei a usar cavalo, porque bicicleta não resolvia. Tinha muito morro e barro. Quando chovia, era complicado, mas tinha que ir.
Depois fiz o magistério e voltei ao Grupo Escolar da Sede, com contrato estadual.
FP - E foi também nessa época que o senhor constituiu sua família?
Vendelino - Eu me casei em 17 de fevereiro de 1969 com a professora Irene Rita De Carli. Estamos juntos há 57 anos. Temos três filhos e sete netos.
Um filho é militar do Exército, outro é advogado e nossa filha, Fausta, também é advogada. A Irene sempre foi muito importante na minha trajetória. Ela também era professora e esteve ao meu lado em tudo o que fizemos.
FP - Um dos momentos marcantes foi a criação da escola Sepé Tiaraju. Como surgiu essa ideia?
Vendelino - Quando trabalhávamos no magistério, surgiu a ideia de criar uma escola na zona sul. O vereador Benno Seno Fries dizia que muitos alunos indígenas precisavam atravessar a cidade para estudar.
Pegamos um grupo de normalistas e fizemos um levantamento. Passamos os dados ao vereador, que pediu ao prefeito que encaminhasse o projeto ao Estado. No ano seguinte, a escola foi criada.
No começo chamava-se escola Tenente Portela e funcionava até a quinta série. Ficamos em um prédio alugado, onde havia um internato. Depois passou a se chamar Sepé e, mais tarde, Sepé-Tiaraju, em referência à presença de muitos alunos indígenas e à figura de Sepé Tiaraju.
FP - Houve resistência à criação da escola?
Vendelino - Sim. Algumas pessoas entendiam que uma nova escola tiraria alunos das outras. Mas nós não desistimos. A necessidade existia.
A escola ganhou reconhecimento porque os professores eram dedicados e os pais participavam muito. Quando chamávamos para uma reunião, praticamente 100% compareciam.
Fui o primeiro diretor e fiquei cinco anos. Depois começaram a pedir a sétima e a oitava séries.
FP - E como conseguiu essas duas séries?
Vendelino - Fizemos um projeto para criar as duas ao mesmo tempo. Disseram que não seria aprovado porque nunca havia sido feito daquela forma.
Eu conhecia o governador Pedro Simon e ele havia dito que poderia procurá-lo quando precisasse. Fui a Porto Alegre. Cheguei à casa dele e estava varrendo o passeio. Tomei um chimarrão e expliquei o projeto.
Ele perguntou se havia alguma coisa na lei dizendo que não poderia. Disse que não havia encontrado. Então respondeu: “Então está criado”.
Assinou o projeto e pediu que eu passasse pela Secretaria da Educação. Liguei para as professoras Irene e Hermosina e disse que podiam abrir as matrículas. Chamaram nós de loucos, mas deu certo. Tivemos duas turmas de sétima e duas de oitava séries no primeiro ano.
FP - O senhor costuma falar sobre coragem para empreender. Essa experiência reforçou essa ideia?
Vendelino - A coragem de empreender é fundamental. Não podemos ficar esperando as coisas acontecerem. Quando existe uma necessidade e se acredita naquilo que está sendo feito, é preciso enfrentar as dificuldades.
FP - O que mais mudou na relação entre professores, alunos e famílias?
Vendelino - Naquela época, a relação era baseada no respeito. Os pais eram presentes e o Círculo de Pais e Mestres funcionava muito.
Também havia dificuldades materiais. Às vezes precisávamos fazer festas para comprar giz e outros materiais. A comunidade ajudava.
Hoje parece que, muitas vezes, a educação dos filhos ficou para a escola. Eu acho que a família precisa educar e a escola ampliar o conhecimento. A família tem um papel fundamental.
FP - Existe algum aluno que tenha ficado especialmente marcado?
Vendelino - Não consigo separar um aluno dos outros. Todos tiveram carinho por mim e eu também tive muito carinho por eles.
Hoje encontro ex-alunos e eles me reconhecem. Alguns estão longe e ligam dizendo que estão com saudade. Lembram de coisas que fizemos juntos, como cantar “Bela Polenta” em italiano.
Eu acho isso muito bonito. O professor uma vez, professor sempre.
FP - O que um professor pode deixar para um aluno além do conhecimento?
Vendelino - Respeito, carinho, amor e humildade.
Às vezes era necessário ser firme. Eu dizia: “Eu te xingo porque eu te quero bem”. Mas procurava fazer isso de maneira reservada, conversando com o aluno.
O professor fica na memória do aluno.
FP - O senhor sempre buscou estudar. O que isso representou?
Vendelino - Procurei sempre estudar. Fiz técnico em contabilidade, magistério, faculdade de administração escolar e pós-graduação em planejamento educacional.
Também trabalhei com matemática, química, física, biologia e informática. Na pós-graduação, em Santa Rosa, fiz amizade com o padre Giancarlo Milanesa, que veio da Itália. Ele falava italiano e acabamos conversando no idioma e ajudando um ao outro.
Acho que o professor não pode ficar parado. Precisa continuar aprendendo.
FP - Depois de tantos anos dedicados à educação, como é a aposentadoria?
Vendelino - Nós nos aposentamos porque apareceram os netos. Um dos nossos filhos morava no Mato Grosso e tinha filhos gêmeos. Não conseguiram ninguém para ajudar, então fomos cuidar deles.
Depois passamos a cuidar daquilo que construímos. Temos casas e terrenos, cuidamos dos pátios, plantamos verduras e procuramos nos manter ativos.
Um dia corto grama, outro limpo, outro faço caminhada. Cuido da horta e do jardim.
A gente viu as crianças crescerem. Agora precisa ver as plantas crescerem também.
Também faço Pilates duas vezes por semana. É importante para o físico e para a mente.
FP - O senhor acompanhou praticamente toda a transformação de Tenente Portela. Como olha para a cidade de hoje?
Vendelino - Quando eu era criança, aqui era praticamente mato. Havia algumas ruazinhas.
Lembro do primeiro prefeito, Arthur Ambros, que era engenheiro. Lembro dele andando com um funcionário, puxando a trena para marcar as ruas.
Hoje temos ruas asfaltadas, praças, flores e muitas melhorias. Nos últimos anos, principalmente, a cidade cresceu bastante. A Avenida Santa Rosa está ficando muito bonita e foi feito o caminhódromo.
Também temos o hospital, que é uma referência. Meu pai foi um dos sócios no início. Na época do padre Albino, as irmãs tiveram uma participação muito importante. Depois, a instituição voltou para a comunidade.
Quando a gente olha para trás, percebe o quanto Tenente Portela cresceu.
FP - O senhor recebeu recentemente a Comenda Padre Albino Busato. Como recebeu esse reconhecimento?
Vendelino - Foi um momento muito especial. Receber a Comenda, na Assembleia Legislativa, em Porto Alegre, foi um reconhecimento por aquilo que a gente fez.
Eu até levei um susto. Não sei se a gente mereceu tudo isso, mas ficamos muito felizes.
Eu sempre digo que ninguém consegue construir uma trajetória sozinho. É preciso ter uma companheira que ajude. Se não tiver alguém ao lado, apoiando e participando, a coisa não anda.
FP - Mesmo tendo recebido convites para trabalhar em outros lugares, o senhor escolheu permanecer em Tenente Portela. Por quê?
Vendelino - Tivemos muitos convites para sair daqui. Chegamos a ser convidados para trabalhar até em Brasília. A Irene também teve oportunidades.
Mas escolhemos ficar.
Tenente Portela é um lugar muito bom para viver. Aqui fizemos nossos amigos, construímos nossa história e fomos bem recebidos.
A gente tem nossas raízes aqui. É uma cidade acolhedora e nunca sentimos necessidade de abandonar Portela.
FP - Para encerrar, que mensagem o senhor deixa para os jovens e para as pessoas que fazem parte da história da nossa terra?
Vendelino - Para os jovens, é preciso ter humildade, respeito e cuidado com a vida.
É preciso cuidar da alimentação, evitar exageros na bebida e no cigarro e respeitar o próprio corpo. Quando a pessoa respeita a si mesma, consegue respeitar melhor as outras pessoas.
Cuidando-se, a gente vive melhor e tem mais longevidade.
E digo também que Portela é um lugar muito bom de viver. Tivemos oportunidades para sair, mas escolhemos ficar. Aqui temos nossos amigos, nossa história e uma cidade acolhedora.
Sensação
Vento
Umidade