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Nossa Terra, Nossa Gente: irmã Irene Luisa Pittas relembra trajetória de fé e dedicação à saúde

Religiosa conta sobre a infância, a vocação, a formação profissional, os anos de trabalho em hospitais e sua ligação com Tenente Portela

10/10/2026 09h50
Por: Júlio Santos
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A trajetória da irmã Irene Luisa Pittas é marcada pela fé, pela vida religiosa e pelo trabalho na área da saúde. Nascida em 19 de abril de 1950, em Ajuricaba, passou a infância entre Ajuricaba e Santo Ângelo, em uma família ligada ao trabalho, à agricultura familiar e à religiosidade.

A convivência com as irmãs do Colégio Teresa Verzeri, em Santo Ângelo, despertou sua identificação com a vida religiosa. Depois da formação religiosa, construiu também sua trajetória profissional, formando-se em Administração e, posteriormente, fazendo o curso Técnico em Enfermagem. Dedicou grande parte da vida ao trabalho em hospitais, incluindo o Hospital do Exército.

No final de 1976 e início de 1977, chegou a Tenente Portela para sua primeira comunidade como irmã jovem. Permaneceu no município por cerca de três ou quatro anos, atuando junto ao hospital e à farmácia. Depois, seguiu para Três de Maio e, décadas mais tarde, retornou a Tenente Portela, em 2022.

Na série Nossa Terra, Nossa Gente, irmã Irene relembra a infância, a vocação, a formação, a atuação na saúde, as experiências vividas em Tenente Portela e o reencontro com a cidade.


Folha Popular - Irmã Irene, onde e quando a senhora nasceu?

Irene Luisa Pittas - Eu nasci no dia 19 de abril de 1950, em Ajuricaba, que pertencia a Ijuí. Meu pai sempre me dizia que eu nasci em um Ano Santo, e acho que isso também foi colocando Nossa Senhora dentro do meu coração.

Quando eu era pequena, Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal para uma visita. Eu queria muito ver Nossa Senhora e meu pai fez um esforço grande para me levar até ela no meio da multidão. Eu queria tocar em Nossa Senhora e, quando percebi que era uma imagem de madeira, fiquei muito decepcionada. Meu pai trabalhava com madeira e então eu disse: “Mas ela é de pau”. Ele explicou que era apenas um símbolo.

FP - Como foi sua infância e a vida em família?

Irene - Fiquei em Ajuricaba até os três ou quatro anos. Depois, meu pai, que era marceneiro, foi para Santo Ângelo. Minha mãe era costureira e gostava muito da vida do interior. Ela começou a comprar vacas e tivemos uma pequena leiteria. Trabalhávamos com agricultura familiar, sempre em terras alugadas. A gente tirava o leite e levava para vender na cidade.

FP - Foi em Santo Ângelo que começou sua aproximação com as irmãs?

Irene - Sim. Meu pai fazia móveis para as irmãs e chegou a fazer o altar e os confessionários do Colégio Teresa Verzeri. Minha mãe vendia leite para o colégio e nós levávamos diariamente. Ela tinha uma veneração muito grande pelas irmãs.

Eu também estudava no Verzeri e gostava muito. As irmãs me tratavam com carinho e fui criando uma identificação com aquele ambiente.

FP - Quando começou a surgir a ideia de seguir a vida religiosa?

Irene - Eu devia ter uns seis ou sete anos quando me perguntavam o que eu queria ser. Eu dizia que ou seria freira ou casaria com um major. Minha mãe tinha muito contato com as esposas dos militares, que iam até nossa casa para costurar, e aquilo me chamava a atenção.

Depois, estudando no Verzeri, fui conhecendo melhor as irmãs e me identificando cada vez mais com aquele modo de vida. Isso foi alimentando minha vocação.

FP - Como foi sua adolescência e a continuidade dos estudos?

Irene - Comecei o ginásio no Verzeri por volta de 1963. Morávamos cerca de três quilômetros da cidade e eu ia a pé. Era estrada de barro e eu chegava à escola com os pés sujos. Como o uniforme precisava estar impecável, tinha que lavar os pés e colocar as meias brancas antes de entrar na escola.

Minha mãe conseguiu uma família em Santo Ângelo para eu ajudar a cuidar de uma criança. Era a família de dona Alessi e seu Gemi Conti. Eles tinham um supermercado e me acolheram muito bem. Fiquei oito anos com eles e devo muito a essa família.

FP - Depois do segundo grau, a senhora chegou a pensar em seguir outra profissão?

Irene - Quando terminei o segundo grau, fiz o científico no Colégio Missões, em Santo Ângelo. Alguns professores queriam que eu fosse para Santa Maria estudar Enfermagem, que era uma área que eu queria. Mas eu já sentia o desejo de entrar para o convento.

Conversei com a família que me acolhia e disse que queria seguir esse caminho. Eles me apoiaram muito. Meu pai tinha acabado de casar minha irmã e a família não tinha condições de preparar meu enxoval. Então, essa família me ajudou e me deu todo o enxoval para eu entrar na vida religiosa.

FP - Onde a senhora fez sua formação religiosa?

Irene - Fui para Esteio. Lá fiz o postulantado e dois anos de noviciado. Depois fiz a primeira vestição e permaneci dois anos no Colégio Navegantes, em Porto Alegre, ainda em formação.

Depois veio a minha primeira comunidade como irmã jovem, como juniorista. E foi justamente aí que vim para Tenente Portela.

FP - Nesse período, como a senhora construiu sua formação profissional?

Irene - Eu me formei em Administração e depois fiz o curso Técnico em Enfermagem. Minha vida profissional acabou ficando muito ligada à área da saúde. Passei grande parte da minha vida trabalhando em hospitais, em diferentes lugares e instituições.

Também tive a oportunidade de trabalhar no Hospital do Exército. Foram experiências muito importantes, porque cada hospital tinha sua realidade e cada lugar me ensinava alguma coisa.

FP - O que a experiência na enfermagem representou para a senhora?

Irene - Representou muito. O trabalho em hospital nos coloca diante de muitas situações. A gente acompanha pessoas doentes, famílias, momentos de alegria, mas também momentos muito difíceis. É preciso ter responsabilidade, carinho e saber acolher.

Foi uma área à qual dediquei grande parte da minha vida e que me proporcionou muitos

FP - E quando a senhora chegou a Tenente Portela?

Irene - Estive em Tenente Portela no final de 1976 e início de 1977. Foi minha primeira comunidade depois que saí da formação religiosa. Vim para Portela, uma cidade distante. Viajei o dia inteiro e cheguei por volta das 17 horas.

Já estavam me esperando na farmácia. Tinha a irmã Noeli, que era farmacêutica e me assessorou muito, porque eu não tinha conhecimento nenhum naquela área. Também estavam as meninas, como a Ângela e a Elisabete Perroni, que me ajudaram muito. Tinha ainda a Rosinha Furini e dona Helena Molinari.

FP - Quando a senhora chegou, as irmãs ainda administravam o Hospital Santo Antônio. Como era essa estrutura e o trabalho realizado naquele período?

Irene - O hospital já estava funcionando, mas era muito limitado, bastante precário. A farmácia era grande e a irmã Noeli cuidava muito bem dessa parte. Nós tínhamos 49 funcionários.

Ela dizia para nós: “Irmãs, vamos tentar cobrir esse tempo todo com o nosso trabalho para não precisar mudar a porta do hospital”, porque isso significaria entrar em uma parte mais burocrática.

FP - Como era a cidade naquela época?

Irene - Era uma cidade bem menor. Naquele tempo parecia um povoado. A gente ia para lugares que hoje estão completamente diferentes.

Lembro que eu e a irmã Teresinha Gazola íamos até uma vila chamada Caxambu para plantar alface e ajudar a limpar o terreno. Também fazíamos trabalhos de assistência fora do hospital.

FP - Quem eram os médicos que atendiam naquela época?

Irene - Tínhamos o doutor Hélio, o doutor Ubiratan e o doutor Caubi. Depois veio o doutor Hermes e também tivemos o doutor Neves, que era pediatra.

Apesar de ser uma estrutura pequena e com pouca gente trabalhando, era feito um trabalho muito bom. O hospital atendia muita gente, inclusive indígenas que vinham com seus filhos para tratamento. Também havia muitos atendimentos gratuitos para quem não tinha condições de pagar.

FP - A senhora vivenciou situações que ficaram marcadas durante esses anos?

Irene - Sim. Eu não estava acostumada a conviver com doença e situações graves. O primeiro choque muito grande foi quando chegou um menino que havia colocado a mão em uma ceifadeira e perdeu praticamente toda a mão direita.

Também houve situações de violência e acidentes que marcaram muito. Certa vez chegaram ao hospital jovens que haviam morrido em uma ocorrência. Eles estavam dentro de um camburão da Polícia Civil, ficaram sem ar e morreram asficiados. Em outra situação, vieram militares que sofreram um acidente durante uma missão. São lembranças que ficam.

FP - Quantas irmãs atuavam na comunidade naquele período?

Irene - Éramos em torno de 12 ou 13 irmãs. Havia também o Colégio das Irmãs, que existia antes da minha chegada. Ficava no local onde hoje está o Centro Pastoral. O padre Guido também já atuava bastante na comunidade, e lembro da irmã Merenciana, que ajudava muito na parte de canto.

FP - Quanto tempo a senhora permaneceu em Tenente Portela nessa primeira passagem?

Irene - Eu fui em 1976, 1977, 1979, 1980. Não tenho presente bem isso aí. Fiquei três ou quatro anos aqui. Daí fui para 13 de Maio.

FP - Depois de deixar Tenente Portela, quais lembranças daquele período permaneceram mais fortes?

Irene - Muitas. Eu tinha uma tia aqui, dona Emília Mégier, casada com meu tio Casimiro, irmão da minha mãe. Eu a visitava com frequência e tínhamos muito carinho uma pela outra.

Também vivi momentos alegres e momentos muito tristes. Lembro de situações envolvendo famílias que passaram pelo hospital, de crianças e de pessoas que perderam a vida. Tudo isso fazia parte da rotina de uma cidade pequena e de um hospital que atendia praticamente toda a região.

FP - Entre essas lembranças estão também histórias de crianças que foram adotadas?

Irene - Sim. Naquele tempo muitas crianças foram adotadas aqui. Uma situação que me marcou foi a de um casal de gêmeos. A mãe não tinha condições de criar os filhos e decidiu entregá-los para adoção.

Uma pessoa veio do Rio de Janeiro para buscar apenas o menino. Quando cheguei ao berçário e disse que a mãe havia vindo buscar o menino, a menina começou a chorar. Aquilo me tocou muito. Eu disse àquela senhora que não deveríamos separar os gêmeos.

Ela decidiu levar os dois. Saiu pelo comércio para comprar outro enxoval e acabou levando as duas crianças. Foi uma atitude muito bonita e que nunca esqueci.

FP - Depois de tantos anos fora, quando a senhora retornou a Tenente Portela?

Irene - Em 2022, na metade do ano, eu voltei para Portela. Antes disso, eu fiquei em Juiz em 2021.

FP - Como foi reencontrar a cidade depois de tantas décadas?

Irene - Eu voltei para Portela e fiquei vislumbrada com o crescimento. Principalmente entrando pela região de Boa Vista do Buricá e Palmitinho, fiquei impressionada. A cidade cresceu muito.

FP - E como foi retomar o trabalho junto à comunidade?

Irene - Nós não tínhamos mais o hospital como naquela época. Mesmo assim, comecei a fazer visitas aos doentes. A dona Mirna me deu um crachá da pastoral e passei a visitar os pacientes.

Depois, o padre me pediu para coordenar a catequese no Centro Pastoral. Então comecei a me envolver bastante com as crianças e, aos poucos, deixei as visitas ao hospital. Hoje tenho uma equipe que continua fazendo esse trabalho.

FP - O que Tenente Portela representa na sua história?

Irene - Portela me marcou muito. Foi minha primeira comunidade como irmã jovem e aqui vivi experiências que fizeram parte da minha formação. Conheci pessoas, trabalhei no hospital, participei da vida da comunidade e acompanhei muitas histórias.

Quando voltei, percebi o quanto a cidade cresceu e o quanto o trabalho realizado ao longo dos anos transformou a comunidade.

FP - Para finalizar, que mensagem a senhora deixaria aos jovens de hoje?

Irene - Eu tenho uma preocupação muito grande com a vocação. Tenente Portela já deu mais de 40 irmãs desde a criação do município e hoje não está saindo nenhuma irmã daqui.

Gostaria de ver os jovens mais envolvidos com a Igreja. O padre Luiz Afonso está fazendo um trabalho de base, procurando fortalecer os corações, colocar essa semente do amor para depois germinar, frutificar e se espalhar.

Os jovens precisam olhar um pouco para tudo o que está acontecendo no mundo. Há tanta maldade, tanta droga, tantos acidentes e tragédias. É preciso estar mais com Deus. Talvez, nesse contato com Deus, Ele toque o coração de alguém e chame para o sacerdócio ou para a vida religiosa.

Mas uma vocação não precisa ser somente religiosa. Constituir uma família também é uma missão. O importante é descobrir o chamado e assumir com responsabilidade aquilo que Deus coloca no coração.

 

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