Dando continuidade à série de entrevistas com os profissionais do Hospital Santo Antônio, o Folha Popular conversa nesta edição com o médico otorrinolaringologista Gustavo Mury. Formado pela Universidade Federal de Rio Grande, em 2012, o profissional construiu sua trajetória na área após passagem pelo serviço militar e posterior especialização em otorrinolaringologia em São Paulo.
Durante sua formação, permaneceu por mais três anos junto a uma equipe especializada em cirurgias do nariz. Posteriormente, atuou durante dois anos no Mato Grosso e, há quatro meses, passou a atuar em Tenente Portela.
O médico fala sobre as principais doenças relacionadas ao ouvido, nariz e garganta, cirurgias endonasais, problemas respiratórios, ronco e apneia do sono. Também aborda os impactos da respiração pela boca durante a infância e a relação entre procedimentos funcionais e estéticos do nariz.
Folha Popular – Dr, para começarmos, fale um pouco sobre sua formação profissional e sua trajetória até chegar à atuação como otorrinolaringologista no Hospital Santo Antônio.
Gustavo Mury - Eu me formei na Universidade Federal de Rio Grande, em 2012. Depois, prestei serviço militar como médico e, nesse período, estudava para a prova de especialização em otorrinolaringologia. Fui aprovado em São Paulo, no Hospital CEMA, que é especializado em olhos, ouvido, nariz e garganta e trabalha com essas especialidades.
Fiz minha especialização e permaneci mais três anos junto à equipe de cirurgia do nariz. Depois saí desse hospital e fui trabalhar no Mato Grosso por dois anos. Agora cheguei a Tenente Portela, há quatro meses.
FP - A otorrinolaringologia envolve problemas relacionados ao ouvido, nariz e garganta. Quais são as principais queixas e doenças que chegam ao consultório nessa área?
Gustavo - O mais comum é atendermos problemas de rinite, sinusite, infecções de garganta e crianças com adenoide e amígdalas aumentadas, além de problemas de respiração e ronco. Também atendemos problemas relacionados ao ouvido, como as otites e outras inflamações.
FP - O senhor realiza cirurgias nasais e de garganta. Em quais situações uma cirurgia deixa de ser apenas uma possibilidade e passa a ser indicada para o paciente?
Gustavo - Quando o paciente apresenta quadros de infecção de repetição, especialmente na garganta, e precisa utilizar múltiplos ciclos de antibióticos ao longo do ano, a cirurgia se torna uma maneira bastante eficaz de resolver o problema. As infecções repetidas podem levar a abscessos e outras complicações, inclusive infecções extratonsilares, que podem ser mais perigosas e até oferecer risco à vida.
FP - Entre os procedimentos realizados pelo senhor está a cirurgia endonasal. Como ela é feita e quais problemas podem ser tratados por meio dessa técnica?
Gustavo - A cirurgia endonasal é realizada com câmeras, por dentro do nariz, sem nenhum corte externo. É uma técnica que evoluiu muito nos últimos anos e permite resolver problemas tanto de obstrução nasal, quando o nariz fica trancado, quanto de sinusite crônica, que envolve o acúmulo de secreção nos seios da face.
FP - Muitas pessoas convivem durante anos com dificuldade para respirar pelo nariz, ronco ou obstrução nasal. Quando esses sintomas merecem uma investigação mais aprofundada?
Gustavo - O ronco, por si só, não é uma doença, mas é um sintoma que pode esconder uma doença grave, que é a apneia do sono. A apneia ocorre quando a pessoa para de respirar durante a noite e os níveis de oxigênio no sangue acabam ficando reduzidos.
É uma doença que pode reduzir a expectativa de vida e aumentar riscos à saúde. Também pode aumentar o risco de acidentes de trânsito, diminuir a produtividade no trabalho e o desempenho acadêmico, além de contribuir para o absenteísmo. O ronco também representa um problema social importante, podendo afetar o casamento e as relações pessoais.
FP - A respiração pela boca pode estar relacionada a problemas no nariz e na garganta. Quais consequências esse hábito pode trazer para a saúde e para a qualidade de vida?
Gustavo – A respiração pela boca pode prejudicar o desenvolvimento dos seios da face, que iniciam na infância e concluem na idade. A criança que não respira pelo nariz e apresenta respiração predominantemente oral pode desenvolver alterações ortodônticas, que é a posição dos dentes.
Também podem ocorrer sono agitado, dificuldade de concentração no colégio e, em alguns casos, alterações de comportamento. Uma criança mais irritada ou que apresenta dificuldades no convívio social pode estar escondendo um problema relacionado ao sono e à respiração pela boca.
FP - O senhor também atua com procedimentos relacionados à estética da face. Como a otorrinolaringologia pode contribuir para melhorar tanto a função respiratória quanto a harmonia facial?
Gustavo - Atualmente, especialmente dentro da otorrinolaringologia, buscamos que a cirurgia nasal proporcione também uma melhora da respiração. Não basta apenas uma melhora estética sem uma melhora funcional. Muitas vezes, é necessária uma abordagem que reúna os dois objetivos.
FP - Existe uma diferença entre uma cirurgia realizada exclusivamente por uma questão estética e um procedimento que busca corrigir uma alteração funcional do nariz? Como essa avaliação é feita?
Gustavo - Nós, otorrinos, sempre que vamos propor uma cirurgia estética, também avaliamos a questão funcional. As duas abordagens caminham juntas.
FP - Na sua avaliação, qual é a importância de oferecer atendimento especializado em otorrinolaringologia dentro de um hospital regional como o Santo Antônio, especialmente para os pacientes que antes precisavam buscar esse tipo de atendimento em centros maiores?
Gustavo - Considerando a abordagem multidisciplinar que hoje é preconizada nos serviços de saúde, muitas vezes o paciente não apresenta apenas uma queixa relacionada ao nariz, à garganta ou ao ouvido. Existem outras manifestações da doença, como dificuldades para dormir, dificuldade de ganho de peso e alterações de comportamento, especialmente nas crianças.
Quando o atendimento fica restrito a apenas uma especialidade, torna-se mais difícil chegar a um diagnóstico preciso e oferecer um tratamento eficaz.
FP - O senhor gostaria de acrescentar algum aspecto que considera importante dentro dessa atuação?
Gustavo - O otorrinolaringologista é um dos profissionais importantes para avaliar o desenvolvimento das crianças, especialmente em questões relacionadas à aquisição da linguagem e ao desenvolvimento pedagógico.
Muitas vezes, problemas que inicialmente não parecem estar relacionados à audição ou à respiração podem ter uma melhora importante no diagnóstico e no tratamento quando conseguimos reunir diferentes especialidades. Uma criança que não ganha peso ou que apresenta dificuldades na escola, por exemplo, pode ter alguma condição relacionada a esses aspectos que precisa ser investigada.
FP - Para finalizar, que orientação o senhor deixaria para as pessoas que apresentam dificuldades persistentes para respirar, ronco, problemas de garganta ou outras alterações que muitas vezes acabam sendo consideradas normais no dia a dia?
Gustavo - Uma das primeiras medidas, que é simples e apresenta poucos riscos, é realizar a lavagem nasal com soro fisiológico. É algo recomendado tanto para crianças quanto para adultos. Deve ser utilizado soro fisiológico e não se deve aplicar muita pressão durante a lavagem.
Também não adianta apenas pingar uma gota de soro ou borrifar a medicação. A lavagem nasal pode ser comparada a escovação dos dentes, ajudando a prevenir complicações otorrinolaringológicas.
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