Dando continuidade à série de entrevistas com profissionais que atuam no Hospital Santo Antônio (HSA), o Folha Popular conversa com o médico Herisson Duarte, neurocirurgião e responsável pelo novo espaço de Terapia da Dor da instituição. Natural do Rio de Janeiro, ele construiu sua formação em diferentes centros de referência, incluindo o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, e a Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos.
Desde março de 2023, Herisson atua no HSA, onde participou da implantação da área de neurocirurgia e da realização de procedimentos que antes exigiam o deslocamento de pacientes para outros centros. Entre os marcos dessa trajetória está a primeira cirurgia de coluna realizada no hospital.
Especializado também no tratamento da dor, o médico possui formação em tratamento clínico e intervencionista da dor pela Universidade de São Paulo (USP). O novo ambulatório de Terapia da Dor, que começa os atendimentos no início de outubro, amplia um trabalho que já vinha sendo desenvolvido no hospital há mais de dois anos.
Folha Popular - Dr. Herisson, para começarmos, conte um pouco sobre sua origem, onde nasceu e cresceu e o que despertou seu interesse pela Medicina.
Herisson Duarte - Eu sou natural do Rio de Janeiro e minha formação acadêmica em Medicina também foi no Rio de Janeiro. Posteriormente, fiz residência em neurocirurgia na cidade de São José dos Campos, em São Paulo. Depois, fiz mais um ano de neurocirurgia oncológica no Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro, que é referência em câncer no nosso país.
Também estagiei na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, na área de doenças da coluna vertebral. Hoje, na área de dor, tenho formação em tratamento clínico da dor pela USP, durante dois anos, e mais um ano de intervencionismo em dor pela USP de Ribeirão Preto.
FP - E de onde veio a decisão de seguir a Medicina e, posteriormente, a neurocirurgia?
Herisson - Tenho familiares em quem pude me espelhar ao longo da infância em relação aos cuidados com os pacientes. Tenho dois tios que seguiram a carreira médica e, através deles, primos e sobrinhos acabaram se espelhando e seguindo também essa carreira. Foi uma referência que tive dentro da própria família.
FP - O senhor buscou experiências em diferentes instituições, inclusive no Instituto Nacional do Câncer e na Universidade da Virgínia. O que essas experiências acrescentaram à sua formação?
Herisson - Acrescentaram de forma grandiosa ao profissional que hoje eu sou. Quando saímos da residência, ainda precisamos de aprendizados que não são suficientes somente durante a residência.
Na Universidade da Virgínia, foi uma experiência em outro país, outro ambiente e outro sistema de saúde. Pudemos conhecer como funciona a sistemática americana de suporte à saúde.
No Instituto Nacional do Câncer, o aprendizado foi muito importante para minha formação como cirurgião e neurocirurgião, principalmente na parte oncológica, no tratamento das doenças do sistema nervoso central.
FP - Quando o senhor chegou a Tenente Portela e como surgiu a oportunidade de atuar no Hospital Santo Antônio?
Herisson - Em 2022, passei um ano trabalhando no Centro-Oeste catarinense, mas por algumas razões não consegui realmente me fixar na cidade. No final daquele ano, vi uma proposta de emprego para Tenente Portela, me interessei e conversei diretamente com a presidente do hospital, Dona Mirna Braucks.
Ela fez o convite para que eu viesse conhecer a cidade, trouxesse minha família para conhecer e visse se realmente teria interesse em ficar. Então estamos aqui desde março de 2023.
FP - Quando o senhor chegou, como estava estruturada a área de neurocirurgia do Hospital Santo Antônio?
Herisson - A parte de neurocirurgia aqui no hospital era praticamente nula. Ao ser convidado para vir, em 2023, a Dona Mirna pediu que preparássemos uma lista de materiais suficiente para a abordagem principalmente das doenças neurocirúrgicas de urgência.
Existem doenças que necessitam de uma abordagem imediata do crânio e, muitas vezes, os pacientes precisavam ser encaminhados para Carazinho ou Passo Fundo, em deslocamentos que poderiam levar horas. Esse período de transporte é muito precioso. Muitas vezes, a pessoa pode falecer durante o transporte devido a essa dificuldade.
Nós operamos um paciente, há aproximadamente um ano, que teve um hematoma extradural de fossa posterior. Ele piorou em questão de meia hora. Provavelmente não estaria mais entre nós se tivesse sido encaminhado para outro centro. Como foi abordado rapidamente, está vivo e está muito bem.
FP - Em 2023, o HSA realizou a primeira cirurgia de coluna, uma artrodese conduzida pelo senhor. O que aquele momento representou?
Herisson - Foi um marco para a cidade e foi muito importante para mim participar desse momento, porque foi a primeira cirurgia de coluna efetiva no Hospital Santo Antônio.
O hospital se preparou e se capacitou para realizar esse tipo de cirurgia, tanto em relação ao conhecimento quanto aos equipamentos e à estrutura necessária. Foi realmente muito importante e tem agregado muito aos pacientes. Graças a Deus, temos tido bons resultados.
FP - Além da neurocirurgia, o senhor se especializou na avaliação e no tratamento da dor. O que é a dor crônica e por que ela pode afetar tanto a vida de uma pessoa?
Herisson - Hoje a Medicina tem evoluído bastante e o entendimento da dor crônica também. Uma dor que ultrapassa três meses não é mais apenas um sintoma, mas uma doença. E, como uma doença crônica, precisa ser tratada para melhorar a qualidade de vida do paciente.
O intuito de todo o estudo que fizemos e da abertura do ambulatório é justamente promover uma melhora dessa dor crônica e proporcionar alívio aos pacientes.
FP - Recentemente, o Hospital Santo Antônio inaugurou um espaço específico para a Terapia da Dor, sob sua responsabilidade. Como surgiu esse projeto e qual é a proposta do serviço?
Herisson - O projeto foi iniciado no ano passado, quando a diretoria do hospital entrou em contato com o governo do Estado propondo um ambulatório de dor crônica. Neste ano, foi autorizada a abertura do ambulatório aqui no Hospital Santo Antônio.
Esse espaço será destinado ao tratamento de pacientes com dor crônica. Se pensarmos que cerca de 30% da população em geral tem dor crônica, podemos imaginar o impacto que um tratamento adequado pode ter na qualidade de vida.
O objetivo é diminuir as dores que tanto atrapalham o dia a dia dos pacientes.
FP - Que tipos de dores poderão ser atendidos nesse espaço?
Herisson - Hoje temos uma gama muito grande de dores. Entre elas estão as cefaleias crônicas, lombalgias crônicas, dores articulares e a fibromialgia, que está bastante em evidência. Também atendemos dores musculoesqueléticas e até dores oncológicas, relacionadas ao câncer.
FP - O novo ambulatório já iniciou os atendimentos? E qual é a experiência que o senhor já possui no tratamento da dor dentro do HSA?
Herisson - O espaço ainda vai começar a atender, com previsão para o início de outubro. Mas, na parte de coluna, que é uma das minhas áreas de atuação, já realizo há bastante tempo o tratamento de dores, tanto de cefaleia quanto de coluna lombar, cervical e dorsal.
Então, a abertura do ambulatório vai agregar mais qualidade a um tratamento que já é feito há mais de dois anos aqui no hospital.
FP - E quais procedimentos já foram realizados nesse período?
Herisson - Trabalhamos com a parte de intervencionismo da dor há mais de dois anos no hospital, com bons resultados. Já tratamos dores na coluna vertebral, artralgia em joelhos e cefaleia cervicogênica, que é uma dor de cabeça proveniente de uma dor no pescoço.
Também já foi tratada aqui uma doença grave que causa muita dor, chamada neuralgia do trigêmeo. Esse é um tratamento que é feito aqui no hospital e que, pelo conhecimento adquirido na área de intervencionismo da dor, conseguimos oferecer na região.
FP - Existe uma estimativa do número de pacientes atendidos?
Herisson - Em média, estamos falando de mais de 200 a 250 pacientes beneficiados por ano com os procedimentos intervencionistas para dor. Atualmente, atendemos aproximadamente de 120 a 150 pacientes por mês com dores relacionadas principalmente a cefaleias e à coluna vertebral.
Também existem outros tipos de dores, chamadas dores neuropáticas, provenientes, por exemplo, de diabetes, deficiência de vitamina B12, entre outras doenças que podem causar dor.
FP - Além do tratamento clínico, o novo espaço também terá outras formas de atendimento?
Herisson - A abertura do ambulatório de dor vai agregar muito tanto para a região quanto para o município de Tenente Portela. Os pacientes vão receber tratamentos que são realizados em grandes capitais e grandes centros especializados em dor.
O que fazemos hoje é algo que dificilmente se encontra no interior do Brasil e no interior gaúcho. Vamos oferecer, além do tratamento clínico, o tratamento intervencionista.
Isso vai ajudar muito na qualidade de vida dos pacientes, seja qual for a causa da dor. O atendimento e o tratamento serão multidisciplinares, contando também com profissionais da fisioterapia e da psicologia.
FP - Para finalizar, depois de sua trajetória na neurocirurgia e agora também à frente da Terapia da Dor do HSA, o que representa para o senhor poder oferecer esse atendimento em Tenente Portela e contribuir para que pacientes da região tenham acesso a tratamentos especializados mais perto de casa?
Herisson - É muito gratificante poder fornecer ao paciente um tratamento de qualidade, principalmente em que possamos melhorar a dor dele.
Quando falo em resolver, não significa necessariamente tirar totalmente a dor, porque muitas vezes isso não é possível. Mas podemos amenizá-la o suficiente para que a pessoa consiga conviver com ela e ter qualidade de vida diária, mesmo com o mínimo de dor.
Esse é o nosso objetivo: trazer qualidade de vida para o paciente que sofre tanto com dor crônica quanto com dor aguda, aqui na região de Tenente Portela e nos municípios da região.
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