
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Ando lendo Bukowski, um escritor norteamericano que nasceu em 1920 e morreu em 1994. Ele viveu a maior parte de sua vida em Los Angeles, em bairros pobres do subúrbio. Foi um menino criado entre a violência, apanhando do pai e sentindo-se a escória da sociedade. Com certa idade, Bukowski foi trabalhar nos correios, tentando levar uma vida normal, como um cidadão comum, mas não conseguia conceber que tinha que viver daquela maneira, indo do trabalho para casa, da casa para o trabalho, do trabalho para os bares e dos bares para casa novamente, em um círculo vicioso que é normal na vida das pessoas com uma rotina de trabalho.
Aos 13 anos começou a escrever, colocando no papel suas indignações com relação à vida que levava. Mas foi nos correios, já adulto, que passou a escrever mais e melhor. Ele escrevia sobre sua própria vida de uma forma autêntica e verdadeira, relatando seu cotidiano de maneira poética e debochada, mostrando suas fraquezas e seus vícios.
A comunicação de Bukowski com a população da periferia era cheia de verdades amargas e realidades cruas. No entanto, seu modo de relatar as coisas e sua visão de mundo tornavam sua narrativa uma interessante ironia com a existência. Bukowski bebia muito, se considerava um alcoólatra inveterado, gostava de lutas de boxe e corridas de cavalo. Vivendo em bares, no ringue ou no hipódromo, ele era um apostador compulsivo em todos os sentidos, vivendo com intensidade e autenticidade, revelando seus segredos mais sórdidos — e por isso, era admirado. Também era apaixonado por mulheres e não se importava em ser politicamente correto. Ele tratava as mulheres de maneira rude, falava o que pensava sem rodeios, o que o tornava um tanto chauvinista e, por isso, era reconhecido como um homem sem filtros.
Apesar de todos esses defeitos, Bukowski foi um dos escritores mais lidos nos Estados Unidos e muito venerado na Europa. O que levaria uma pessoa alcoólatra, rabugenta, esteticamente fora dos padrões, politicamente incorreta e vista como um fanfarrão irresponsável a se tornar uma lenda da literatura underground americana? Seria porque ele desmascarava a hipocrisia e falava sobre aquilo que todos sabiam que acontecia nos subúrbios de Los Angeles? As pessoas que passavam por aquelas situações acabavam se identificando com aquela vida estranha e desajustada. Bukowski era direto, cru, e demonstrava suas mazelas como se não tivesse medo do julgamento dos outros. Isso lhe rendia admiração, mas também uma certa dose de pena e constrangimento por parte de seus leitores.
Sensação
Vento
Umidade