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O que Sergey Lavrov, chanceler russo, busca no Brasil - e na América Latina

O que Sergey Lavrov, chanceler russo, busca no Brasil - e na América Latina

17/04/2023 11h34Atualizado há 3 anos
Por: Júlio Santos
Sergey Lavrov, chanceler russo, desembarca no Brasil. Créditos: MRE Rússia / Twitter
Sergey Lavrov, chanceler russo, desembarca no Brasil. Créditos: MRE Rússia / Twitter

Ao desembarcar no Brasil na manhã desta segunda-feira (7) de calça jeans, tênis e agasalho esportivo, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, mosta que sente-se à vontade para dar continuidade com o governo Lula às discussões sobre a construção de um mundo multipolar, que tem causada pânico e furo entre políticos e a mídia alinhada aos interesses dos EUA.

Em nota divulgada durante o embarque de Lavrov ao Brasil, o Ministério de Relações Exteriores da Rússia diz que a viagem entre os dias 17 e 21 de abril, que inclui ainda escalas na Venezuela, Cuba e Nicarágua, tem o objetivo de "fortalecer a cooperação mutuamente benéfica de nossos países na política, comércio, economia, educação, esfera humanitária, cultura e outros campos".

"Para nós, a América Latina é uma região amiga, um dos centros de um mundo multipolar com o qual a Rússia pretende manter um diálogo dinâmico e desenvolver uma cooperação construtiva e livre de interferências externas", diz a chancelaria russa.

De forma mais direta, o Itamaraty afirma que a primeira visita de Lavrov ao Brasil desde 2019 "também será ocasião para tratar do conflito na Ucrânia".

Em entrevista ao fim da viagem à China, Lula falou sobre as soluções buscadas para o conflito e deu uma declaração que irritou os EUA e provocou alvoroço na ultradireita bolsonarista, que mantém relações íntimas com o trumpismo.

“É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz. É preciso que a União Europeia comece a falar em paz pra que a gente possa convencer o Putin e o Zelensky de que a paz interessa a todo mundo e a guerra só tá interessando, por enquanto, aos dois”, disse Lula em referência aos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Ucrânia, Volodymir Zelensky.

Em artigo na semana passada, antes da viagem à China, O jornal The Washington Post afirma que a vitória de Lula sobre "o ex-militar admirador da ditadura que se aliou ao presidente Donald Trump e à direita global, aumentou o otimismo de que o país mais populoso da América Latina poderia ser um parceiro na promoção de normas democráticas no Hemisfério Ocidental e além".

No entanto, o jornal diz que houve frustração por parte do presidente Joe Biden - que correu para encontrar com Lula antes que o brasileiro fosse à China - e cita a proposta do Brasil para por fim à guerra na Ucrânia como exemplo.

"Um exemplo: a invasão russa. O Brasil apoiou uma resolução da ONU em fevereiro pedindo paz e exigindo que Moscou retire as tropas da Ucrânia. Mas semanas depois, Lula se recusou a assinar uma declaração da Cúpula para a Democracia do presidente Biden que condenava o ataque da Rússia ao vizinho. Um assessor sênior disse que Lula não acreditava que o fórum fosse o local apropriado para discutir a guerra", diz o texto, que destaca uma fala de Celso Amorim de que o "Brasil quer reformar a governança mundial”.

Muito além da guerra na Ucrânia

A viagem de Lavrov à América Latina, no entanto, tem uma proposta muito mais ampla do que quaisquer negociações sobre à Guerra da Ucrânia - embora Vladimir Putin já tenha emite sinais positivos para as sugestões tanto de Lula quanto de Xi Jinping.

Ao indicar Dilma Rousseff para a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco dos BRICS, Lula retoma sua proposta iniciada em seu primeiro mandato, no início dos anos 2000, de criar uma alternativa monetária para as transações comerciais, que são lastreadas pelo dólar desde o fim do padrão ouro.

"Quem é que decidiu que era o dólar? Nós precisamos ter uma moeda que transforme os países numa situação um pouco mais tranquila, porque hoje um país precisa correr atrás de dólar para exportar", disse Lula na posse de Dilma no banco dos Brics.

O recado foi traduzido aos "patriotas" dos EUA e do mundo em entrevista à Fox News, ecoada no Brasil por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), líder d'O Movimento, a internacional fascista criada por Steve Bannon, na América Latina.

"A China quer mudar o padrão, o padrão monetário. E se isso acontecer é como perder uma guerra mundial. Se isso acontecer seremos literalmente um país de segunda linha. Estamos perdendo o Brasil, estamos perdendo a Colômbia, a América do Sul, estamos perdendo o Irã, eles já o perderam. Nós perdemos a Rússia e se ainda não os perdemos eles se vão. A China está ganhando", afirmou Trump.

Trump escancara em sua resposta o verdadeiro motivo da reaproximação, sobre um outro prisma, dos chamados BRICS. Com Lula e a guerra na Ucrânia, fica cada vez mais iminente o descarte do dólar como padrão nas trocas comerciais internacionais.

China e Rússia já firmaram um pacto para deixar o dólar fora de suas transações comerciais. E o Brasil, com Lula, busca o mesmo caminho.

Como já buscou ao fundar o banco dos Brics, hoje presidido por Dilma Rousseff, alvo de um golpe parlamentar que ganhou o aval do sistema financeiro internacional justamente para barrar a ascensão do Novo Banco de Desenvolvimento e da proposta de uma nova ordem nas transações comerciais pelo mundo.

Lavrov sabe que, muito além da Ucrânia, há uma guerra que pode minar seu principal oponente no cenário internacional desde a guerra fria. Com potencial de deixar terra arrrasada assim como disse Trump de uma nova guerra mundial.

Fonte: Revista Fórum - Por 

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