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Tenente Portela

Tenente Portela - Aos 100 anos, Dona Ditinha relembra uma vida de fé, música, trabalho e superação

Com lucidez admirável, Irahilda Moura e Santos relembra a infância, a vida no comércio, o casamento e as mudanças vividas na região ao longo de um século.

25/06/2026 14h01
Por: Júlio Santos
Fotos: Júlio Santos/FP
Fotos: Júlio Santos/FP

NOSSA TERRA, NOSSA GENTE

O Jornal Folha Popular retoma nesta edição a tradicional coluna Nossa Terra, Nossa Gente, espaço dedicado a preservar a memória e contar as histórias das pessoas que ajudaram a construir Tenente Portela e a região. São relatos que atravessam gerações e ajudam a compreender como viviam aqueles que enfrentaram desafios, acompanharam transformações e deixaram sua contribuição para a comunidade.

Para marcar esse retorno, conversamos com uma personagem que carrega um século de histórias. Aos 100 anos, completados em 9 de abril deste ano, Irahilda Moura e Santos, a Dona Ditinha, mantém uma lucidez admirável, continua tocando piano, participa da vida da igreja e guarda lembranças de um tempo em que a luz elétrica ainda não fazia parte da rotina das famílias, quando as estradas eram de chão batido e as mercadorias chegavam em longas filas de carroças.

Natural de Redentora, ela viveu a infância marcada pela perda da mãe aos seis anos de idade. Mais tarde, estudou em Ijuí e Taquara para realizar o sonho de aprender piano, casou-se com Miro Santos, trabalhou por décadas no comércio, morou em Miraguaí e em Tenente Portela, criou uma filha adotiva e enfrentou momentos de profunda tristeza, como a perda do marido há mais de três décadas. Em cada lembrança, porém, permanece a mesma convicção que a acompanha desde jovem: colocar Deus em primeiro lugar.

Com serenidade e gratidão, Dona Ditinha abriu as portas de sua casa para compartilhar um pouco da sua trajetória.

Folha Popular: Dona Ditinha, a senhora completou 100 anos de vida. Como foi sua infância e quais são as primeiras lembranças que guarda daquele tempo?

Dona Ditinha: Minha infância teve momentos muito difíceis. Eu perdi minha mãe quando tinha apenas seis anos de idade. Foi uma dor muito grande para uma criança e uma lembrança que nunca desapareceu. Sofri muito pela falta dela. Naquele tempo a vida já era difícil e, sem mãe, tudo parecia mais complicado. Meu pai precisou seguir em frente e mais tarde casou novamente, mas sempre procurou cuidar de mim e incentivar meus estudos. Uma das coisas que mais gostava era a música. Eu tinha um sonho muito grande de aprender piano. Lembro que um dia pedi ao meu pai que me deixasse estudar e ele fez um enorme esforço para que isso acontecesse. Primeiro fui para Ijuí, onde fiquei na casa de um professor. Depois estudei em internato em Taquara. Foram anos importantes para minha formação. Tive uma professora cega que tocava piano de forma extraordinária. Assisti a um concerto dela e nunca esqueci. As pessoas aplaudiam de pé. Aquilo me marcou profundamente e aumentou ainda mais meu amor pela música.

Folha Popular: Sua história de casamento tem um detalhe curioso que pouca gente conhece. Como aconteceu?

Dona Ditinha: Foi uma história diferente mesmo. Eu estava estudando em Taquara e não imaginava o que estava acontecendo. Enquanto eu estava lá, o Miro conversou com uma moça que estudava comigo e perguntou sobre mim. Depois foi falar diretamente com meu pai. Quando voltei para casa no final do ano, descobri que ele já tinha pedido minha mão em casamento. Eu costumo brincar que fiquei noiva sem saber. Quando cheguei, meu pai me contou e a situação já estava encaminhada. Nós já nos conhecíamos porque éramos parentes, mas eu não imaginava que aquilo estivesse acontecendo. Naquela época as coisas eram muito diferentes de hoje. As famílias participavam muito das decisões e os relacionamentos seguiam outros costumes. Foi assim que começou uma união que marcou toda a minha vida.

Folha Popular: A senhora nasceu em Redentora, viveu em Miraguaí e depois em Tenente Portela. Como foi essa trajetória?

Dona Ditinha: Eu nasci em Redentora. Depois do casamento, nossa vida passou por várias mudanças. Moramos em Miraguaí durante muitos anos, onde trabalhamos no comércio. Era uma época muito movimentada. As mercadorias chegavam de carroça e o movimento era intenso. Eu lembro de um representante comercial que visitou nossa loja e ficou impressionado com a quantidade de carroças descarregando produtos na frente do estabelecimento. Depois viemos para Tenente Portela, retornamos por um período para Miraguaí e, mais tarde, voltamos definitivamente para Portela. Acompanhei toda a transformação da cidade. Quando cheguei, praticamente tudo era chão batido. Quando chovia havia muito barro. Quando fazia calor, a poeira tomava conta das ruas. Hoje vemos uma cidade completamente diferente, mais desenvolvida e estruturada.

Folha Popular: O trabalho sempre esteve presente em sua vida. Como era a rotina naquela época?

Dona Ditinha: Sempre trabalhei muito. Quando era solteira ajudava meu pai no cartório. Nos períodos de maior movimento, principalmente no final do ano, fazíamos serão à noite para colocar o serviço em dia. Naquele tempo não existia a facilidade que existe hoje. Muitas vezes trabalhávamos apenas com luz de carbureto. Eu lembro de sair do cartório tarde da noite e praticamente não encontrar nenhuma casa iluminada. Depois que me casei fui para o comércio e nunca mais saí de trás do balcão. Trabalhei durante muitos anos atendendo clientes, organizando mercadorias e acompanhando o crescimento das cidades onde moramos. Foi uma vida de muito esforço, mas também de muitas conquistas.

Folha Popular: Entre tantas lembranças, existe algum momento que marcou profundamente sua vida?

Dona Ditinha: Sem dúvida a perda do meu marido. Foi o momento mais difícil da minha vida adulta. Nós já estávamos morando em Tenente Portela quando ele precisou passar por um procedimento médico. Infelizmente ele não voltou mais. Foi uma dor muito grande porque construímos toda uma vida juntos. Ele tinha apenas 65 anos. Já faz mais de trinta anos, mas é uma lembrança que continua muito presente. Ao mesmo tempo, agradeço a Deus por tudo o que vivemos. Também tenho uma filha adotiva, que sempre foi uma grande bênção na minha vida, além do meu genro, que considero como um filho. A família foi fundamental para me ajudar a superar os momentos difíceis.

Folha Popular: Aos 100 anos, a senhora continua tocando piano. O que a música representa na sua vida?

Dona Ditinha: A música sempre foi um presente de Deus para mim. Eu continuo tocando quase todas as noites. Tenho um piano em casa e também toco na Igreja Adventista. Hoje praticamente só toco músicas religiosas. Muitas partituras antigas se perderam com o tempo, mas a vontade de tocar continua a mesma. Quando sento ao piano, lembro da minha juventude, dos estudos e das pessoas que fizeram parte da minha caminhada. A música me acompanhou nos momentos felizes e também nos momentos difíceis. É algo que me traz paz e gratidão.

Folha Popular: Qual mensagem a senhora gostaria de deixar para as novas gerações?

Dona Ditinha: A principal mensagem é colocar Deus em primeiro lugar. Essa sempre foi a base da minha vida. Também digo para os jovens estudarem, aproveitarem as oportunidades e construírem uma vida de honestidade. Os bens materiais passam, mas o conhecimento, a fé e os valores permanecem. Quando temos Deus conosco, o restante vem em sequência. Foi isso que aprendi ao longo desses cem anos de vida.


Perfil

Nome: Irahilda Moura e Santos (Dona Ditinha)
Idade: 100 anos
Data de nascimento: 9 de abril de 1926
Naturalidade: Redentora
Trajetória: Morou em Redentora, Miraguaí e Tenente Portela, onde reside atualmente.
Profissão: Comerciante e auxiliar de cartório na juventude.
Família: Mãe de uma filha adotiva.
Paixão: Música e piano.
Religião: Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Lema de vida: "Coloque Deus em primeiro lugar e o restante virá no tempo certo."

 

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