Lauro Brun é um dos militantes históricos do Partido dos Trabalhadores (PT) em Tenente Portela. Desde a fundação da sigla, participa da trajetória do partido no município. Foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar de Tenente Portela, eleito vereador por três mandatos e suplente por dois anos. Em 1988, tornou-se o primeiro candidato do PT a disputar a Prefeitura de Tenente Portela. Advogado desde 1997, coordenou a campanha do partido no município nos dois turnos da eleição presidencial de 2026.
Em entrevista ao Folha Popular, Lauro analisa o resultado eleitoral em Tenente Portela, a atuação da militância, o envolvimento de jovens e estudantes e os desafios para a renovação política. Também aborda a soberania nacional e considera que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa um marco na resistência democrática diante do avanço da extrema direita e das políticas neoliberais.
Folha Popular: Como foi a experiência de coordenar a campanha do PT em Tenente Portela no primeiro e no segundo turnos?
Lauro Brun: O primeiro turno é uma campanha e o segundo é outra. No primeiro, as pessoas acabam se envolvendo também nas disputas para senador, deputado estadual e deputado federal. Isso provoca um fracionamento natural, porque cada grupo busca votos para seus candidatos.
Mesmo assim, fizemos um trabalho para alertar sobre a necessidade de vencer a eleição no primeiro turno. Posteriormente, a coordenação nacional da campanha e o conjunto do partido reconheceram que faltou mais intensidade nesse esforço.
No segundo turno, a situação mudou. Recebemos muitas manifestações de apoio e tínhamos a expectativa de ampliar nossa votação em Tenente Portela. No primeiro turno, a diferença foi de aproximadamente 680 votos. No segundo, caiu para pouco mais de 420 votos.
FP: O que contribuiu para essa redução da diferença entre os candidatos no município?
Lauro: Acredito que conseguimos reverter muitos votos e também mobilizar pessoas que não haviam votado no primeiro turno. A militância teve um papel fundamental. Produzimos material específico para o segundo turno, distribuímos panfletos, visitamos moradores e conversamos com a população.
Não conseguimos chegar a todos os domicílios, mas houve um esforço muito grande, com a colaboração dos companheiros e das companheiras. Tínhamos a convicção de que teríamos uma votação mais expressiva no segundo turno, e isso se confirmou.
FP: A participação dos jovens e dos estudantes chamou a atenção durante a campanha?
Lauro: Sim. Muitos jovens se envolveram em Tenente Portela, assim como estudantes. Isso é muito alentador e, de certa forma, histórico, porque fazia tempo que não víamos uma participação tão significativa da população.
Precisamos apostar na renovação política do PT, com o surgimento de novas lideranças nos âmbitos municipal, regional e nacional. A juventude demonstra que existe disposição para participar e contribuir com o futuro do partido.
FP: Na tua avaliação, o que estava em disputa nessa eleição, além da escolha de um presidente?
Lauro: Entendo que a população percebeu que não se tratava apenas de uma disputa entre o PT e Bolsonaro. Estavam em discussão dois projetos para o país. De um lado, defendíamos a democracia, a melhoria das condições de vida e a soberania nacional. De outro, víamos uma proposta que, na nossa avaliação, representava submissão aos Estados Unidos, além de discursos de ódio e ameaças à democracia.
Acredito que muitas pessoas compreenderam a dimensão histórica dessa escolha, inclusive aquelas que não são petistas. O debate envolvia a continuidade das mudanças e o futuro do país.
FP: Por que consideras essa eleição histórica e como a vitória de Lula colocou o Brasil em evidência na luta contra o avanço da extrema direita?
Lauro: Com certeza, foi uma eleição histórica. O PT enfrentou uma estrutura muito forte, com interesses neoliberais, influências externas, notícias falsas e tentativas de desinformação. Não foi uma disputa simples. Foi uma luta política em torno de dois projetos de país, com visões diferentes sobre democracia, soberania e direitos sociais.
O Brasil acabou se tornando um símbolo de resistência. A vitória de Lula representa, na nossa avaliação, uma demonstração de que é possível enfrentar o avanço da extrema direita, do fascismo e das políticas neoliberais por meio da mobilização popular e da participação democrática.
FP: A mobilização nas ruas foi decisiva para enfrentar a força das redes sociais e a circulação de notícias falsas?
Lauro: Acredito que sim. Enfrentamos uma estrutura muito forte nas redes sociais e a circulação de notícias falsas. Conseguimos furar essa bolha graças à militância e à participação popular.
Quando as pessoas vão para as ruas, conversam e se envolvem no processo político, a capacidade de mobilização aumenta. Foi o que vimos nessa eleição. A militância teve um papel fundamental, assim como os jovens, os estudantes e as pessoas que compreenderam a importância daquele momento.
A força do povo organizado é muito grande. Quando a sociedade participa, debate e defende suas convicções, fica mais difícil impedir que as ideias circulem. Essa mobilização foi essencial para levar nossas propostas à população e enfrentar a desinformação.
Essa resistência ultrapassa as fronteiras brasileiras. O mundo acompanha o que acontece aqui, porque o Brasil é um país de grande importância política, econômica e social. Quando a população se mobiliza, ocupa as ruas e defende seu direito de escolher os rumos da nação, transmite uma mensagem que vai além de uma eleição.
Também precisamos compreender o significado da soberania nacional. O Brasil não pode ficar subordinado aos interesses de uma única potência. Deve negociar com diferentes países, abrir mercados e construir relações internacionais que favoreçam sua população. A independência política e econômica é fundamental para que possamos decidir nosso próprio futuro.
Por isso, considero essa vitória histórica. Ela mostrou que a democracia precisa ser defendida permanentemente e que a mobilização da sociedade pode fazer a diferença diante de forças que tentam enfraquecê-la. O Brasil se tornou uma referência de resistência e esperança para quem acredita que é possível construir um futuro com mais democracia, justiça social e soberania.
FP: Como avalias o debate sobre soberania brasileira e a relação do país com outras potências internacionais?
Lauro: O Brasil tem condições de exercer um papel importante no cenário internacional. A articulação com outros países e a abertura de mercados são fundamentais para que o país não dependa de uma única potência.
O presidente Lula defende a soberania e a independência dos povos, além da negociação com diferentes países, sem um alinhamento automático a um único bloco. Considero que essa postura é importante para os interesses brasileiros.
Também vejo a mobilização popular como uma forma de resistência ao avanço da extrema direita e do autoritarismo. A história mostra os riscos de movimentos que utilizam determinados slogans para defender projetos excludentes. Para mim, patriotismo significa defender a soberania do país, e não transformar os símbolos nacionais em propriedade de um partido político.
FP: Que importância atribuis à abertura de mercados para a economia brasileira, especialmente para o agronegócio?
Lauro: O Brasil precisa diversificar seus mercados. A abertura de oportunidades comerciais para produtos brasileiros ajuda a reduzir a dependência de um único país e pode amenizar os efeitos de medidas que prejudicam nossas exportações.
O agronegócio precisa compreender essa realidade. A China, por exemplo, é um importante comprador de produtos brasileiros, como carne e soja. Por isso, não seria adequado concentrar as relações comerciais apenas nos Estados Unidos. A diversificação é fundamental para proteger a economia e os produtores brasileiros.
Na minha avaliação, a abertura de novos mercados contribui para que o país tenha mais alternativas comerciais e enfrente períodos de dificuldade com maior segurança. As relações internacionais precisam ser conduzidas considerando os interesses brasileiros e as oportunidades para diferentes setores da economia.
FP: Para finalizar, que mensagem deixas aos jovens e às pessoas que participaram dessa eleição?
Lauro: A juventude representa esperança e renovação. Acredito que surgirão novas lideranças em todas as instâncias, desde o município até o cenário nacional. Precisamos de pessoas com novas ideias, propostas inovadoras e vontade de contribuir para o país e para suas comunidades.
Espero que essa participação se mantenha e que, nas próximas eleições, novas lideranças possam se apresentar à sociedade, trazendo novas perspectivas e disposição para trabalhar pela população. A participação dos jovens é fundamental para renovar a política e construir o futuro que queremos para o Brasil e para Tenente Portela.
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