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Tenente Portela

Nilvo Gross relembra sua trajetória e as transformações de Tenente Portela

Morador do município desde o primeiro ano de vida, comerciante construiu sua história entre a agricultura, diferentes profissões e o ramo da alimentação

30/10/2026 15h19
Por: Júlio Santos
Foto: Júlio Santos/FP
Foto: Júlio Santos/FP

A trajetória de Nilvo Gross acompanha as transformações de Tenente Portela. Nascido em 1944, em Santa Bárbara do Sul, chegou ao município aos um ano de idade, de carroça de boi, quando a cidade ainda tinha poucas casas e quase nenhum calçamento. Criado na agricultura familiar, trabalhou na lavoura até os 22 ou 23 anos. Aos 14, comprou sua primeira bicicleta com o dinheiro da venda de feijão que ele próprio plantou.

Em 1966, por orientação médica, deixou o campo e trabalhou como taxista, na Cotrijuí e, posteriormente, no ramo da alimentação. Passou cerca de 18 anos e meio na Lancheria Coqueiro e, desde 1997, mantém sua trajetória no comércio com o Lanches Gross. Casado com Nely Gross desde 1975, constituiu família e acompanhou o desenvolvimento do município.

Na série Nossa Terra, Nossa Gente, da Folha Popular, relembra sua história e aconselha os jovens a valorizar os estudos, o trabalho e a convivência, dedicando menos tempo ao celular.

Folha Popular: O senhor nasceu em qual município e em que ano? Como foi a chegada da sua família a Tenente Portela?

Nilvo Gross: Nasci em Santa Bárbara do Sul, em 1944. Vim para Tenente Portela com um ano de idade. No dia em que completei meu primeiro aniversário, passei de mudança para cá. Viemos de carroça de boi. Uma irmã e eu viemos com a família, e os outros irmãos nasceram aqui. Somos seis irmãos.

Folha Popular: O senhor chegou a conhecer bem a cidade daquela época? Como era Tenente Portela na sua infância e onde a família se estabeleceu?

Nilvo: Eu era muito pequeno, então não tenho tantas lembranças dos primeiros tempos. Mas praticamente não havia calçamento e também não existiam muitas casas. Era tudo diferente, a cidade ainda tinha muito jeito de interior. Para vir até o centro, as pessoas usavam carroça ou cavalo.

Moramos um ano na cidade. Depois, meu pai e meu tio abriram uma pequena área de terra no Lajeado Leão. Fizeram um galpãozinho, mudaram-se para lá e começaram a trabalhar na lavoura. Aos poucos, foram aumentando as plantações. Foi ali que a família passou boa parte daquele período.

Folha Popular: Como era o trabalho na agricultura familiar? O que vocês plantavam e como era a rotina no interior?

Nilvo: Trabalhei na agricultura até os 22 ou 23 anos. Plantávamos principalmente soja, milho, feijão e batatinha. Tínhamos uma vaca para o consumo de leite, mas a atividade principal era a lavoura.

A vida era bastante ligada ao interior. A gente se criou no meio do mato, como se dizia. Às vezes, passávamos três ou quatro meses sem vir à cidade. Tudo era mais distante e diferente do que é hoje. Para visitar parentes ou vir até a cidade, usávamos cavalo e carroça. Era a realidade daquele tempo.

Folha Popular: O senhor chegou a trabalhar como professor antes de seguir outras profissões. Como foi essa experiência e por que precisou deixar a lavoura?

Nilvo: Dei aula durante dois anos na Linha São Luís, como professor contratado temporariamente. Depois desisti e voltei para a lavoura.

Mais tarde, comecei a ter problemas para dormir e sentia que o coração disparava às vezes. Fui consultar um cardiologista em Três Passos e fiz exames. Isso foi em 1966. O médico me orientou a não continuar trabalhando na roça, porque o sol me prejudicava. Ele disse que, naquele momento, o coração estava bem, mas que eu precisava trocar de profissão.

Folha Popular: Como começou sua trajetória profissional na cidade e como foi a passagem pela Cotrijuí?

Nilvo: Vim para a cidade e trabalhei quase três anos como taxista. Depois fui trabalhar na Cotrijuí, onde fiquei quase 12 anos no departamento técnico.

Chegou um momento em que achei que não tinha condições de progredir mais. Conversei com meu chefe, que era agrônomo, e propus duas possibilidades: ou receber um aumento no valor que eu considerava adequado, ou fazer um acordo para sair. Como não chegamos ao valor que eu esperava, o acordo foi feito e deixei a cooperativa.

Folha Popular: Foi depois dessa decisão que o senhor entrou no ramo da alimentação? Como surgiu a Lancheria Coqueiro?

Nilvo: Sim. Depois de sair da cooperativa, abrimos a Lancheria Coqueiro. Conversei com o João Geller, que cedeu o espaço para nós. Trabalhei ali por cerca de 18 anos e meio.

Foi uma etapa importante da minha vida. Depois, o estabelecimento foi vendido e continuei trabalhando na praça, no ramo de lanches. Pelo que me lembro, o Lanches Gross começou em 1997. Já são muitos anos de trabalho nesse ramo.

Folha Popular: O senhor passou por diferentes atividades, da agricultura ao comércio. O que essas experiências representaram na sua vida?

Nilvo: Foram etapas diferentes. Comecei na lavoura, depois trabalhei como taxista, passei pela cooperativa e, mais tarde, fui para o comércio. Cada atividade teve sua época e exigiu dedicação. Quando deixei a agricultura por orientação médica, precisei procurar outro caminho. Foi assim que fui construindo minha vida profissional aqui em Tenente Portela.

Folha Popular: O senhor se casou em 1975. Como é formada sua família?

Nilvo: Minha esposa é a Nely Gross. Temos quatro filhos e três netos, dois meninos e uma menina.

Folha Popular: O senhor viveu praticamente toda a vida em Tenente Portela. Como avalia a evolução do município ao longo desse período?

Nilvo: Acho que, de alguns anos para cá, a cidade evoluiu bastante, mesmo. Quando eu morava na colônia, às vezes passávamos três ou quatro meses sem vir para a cidade. A gente se criou no meio do mato, em uma realidade muito diferente da atual.

Hoje, quando olho para trás, vejo como as coisas mudaram. Naquele tempo, havia poucas casas, quase não tinha calçamento e a vida era muito ligada à agricultura. A cidade foi crescendo, e nós acompanhamos essas transformações.

Folha Popular: O senhor chegou a sair de Tenente Portela para morar em outro lugar?

Nilvo: Não, nunca saí de Tenente Portela. A única vez que fiquei fora foi quando servi no quartel, em São Borja, durante um ano, na cavalaria. Depois voltei e continuei minha vida aqui.

Folha Popular: Quais são as lembranças mais marcantes da juventude? Como eram os encontros e os bailes naquela época?

Nilvo: Naquele tempo, tudo era diferente. Havia mais respeito entre as pessoas. Brigas por qualquer coisa praticamente não aconteciam como a gente vê hoje.

Também havia muitos bailes. Tínhamos uma sociedade em São Pedro e íamos aos bailes onde éramos convidados, em Vista Gaúcha e em outras localidades da região. As pessoas se encontravam, visitavam umas às outras e participavam das festas das comunidades.

Lembro também de Santa Bárbara do Sul, onde nasci. Fui lá uma vez com meu pai, quando tinha oito anos. Depois, voltei quando tinha 21 anos, acompanhando músicos que eram nossos vizinhos. Naquela época, havia uma festa tradicional, com três dias de festa e três noites de baile. São lembranças que ficaram.

Folha Popular: Entre tantas lembranças, qual foi um dos momentos mais alegres da sua vida?

Nilvo: Foi quando comprei minha primeira bicicleta, aos 14 anos. Eu dizia ao meu pai que queria ter uma. Ele me propôs plantar feijão em uma área que havia sido aberta recentemente. Disse que eu venderia a produção e, se faltasse dinheiro, ele completaria.

Plantei o feijão, cuidei bem da lavourinha e colhi seis sacos. Depois vendi a produção e comprei a bicicleta. Fiquei muito feliz. Era uma grande alegria para mim conseguir comprar aquilo com o resultado do meu próprio trabalho.

Folha Popular: E qual foi o momento mais difícil que o senhor enfrentou ao longo da vida?

Nilvo: Foi quando perdi meu pai e, depois, minha mãe. Também perdi dois irmãos, um deles o mais novo. Foram momentos muito difíceis para mim e para a família. A perda dos pais e dos irmãos deixa uma saudade muito grande.

Folha Popular: O senhor acompanhou as mudanças de comportamento entre as gerações. Que conselho deixaria aos jovens de hoje?

Nilvo: O principal é usar bem menos o telefone e se dedicar mais aos estudos e ao emprego. Hoje, algumas crianças já têm celular com quatro ou cinco anos e acabam passando muito tempo nisso.

Às vezes, deixam de se interessar por outras coisas e de conviver com as pessoas. Não são todos, claro, mas acontece com alguns. Acho importante que os jovens estudem, busquem uma profissão, se dediquem ao trabalho e aproveitem também para conversar e conviver com outras pessoas.

Folha Popular: Depois de tantas décadas de trabalho e de vida em Tenente Portela, o que o senhor leva dessa trajetória?

Nilvo: Vivi praticamente a vida inteira aqui. Trabalhei em diferentes atividades, constituí minha família e vi muita coisa mudar. Quando a gente olha para trás, percebe como tudo era diferente e quanto a cidade cresceu. São muitas lembranças, tanto dos tempos da agricultura quanto dos anos no comércio. Cada etapa fez parte da minha história.

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