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Tenente Portela

Israel Capellari: quase um século de histórias e contribuições para Tenente Portela

Ex-prefeito, ex-vereador, comerciante e pioneiro do município relembra a infância de pés descalços, a construção do primeiro hospital, as viagens pelo Brasil, o aeroporto com aviões da Varig e as transformações de Tenente Portela ao longo de mais de nove décadas

26/06/2026 10h04Atualizado há 3 meses
Por: Júlio Santos
Fotos: Júlio Santos/FP
Fotos: Júlio Santos/FP

Nossa Terra, Nossa Gente!

O Jornal Folha Popular dá sequência à coluna Nossa Terra, Nossa Gente, espaço dedicado a preservar a memória e valorizar as histórias das pessoas que ajudaram a construir Tenente Portela e a região.

Nesta edição, conversamos com Israel Capellari, uma das figuras mais conhecidas da história portelense. Aos 93 anos, completará 94 em setembro, ele guarda lembranças de praticamente todas as fases do desenvolvimento do município.

Natural de Tuparendi, chegou a Tenente Portela ainda criança, aos sete anos de idade. Ao longo da vida foi agricultor, comerciante, militar, vereador, presidente da Câmara Municipal de Vereadores e prefeito por dois mandatos. Também participou de importantes iniciativas comunitárias e acompanhou a transformação de uma pequena localidade cercada por matas em uma cidade estruturada e em constante crescimento.

Com memória privilegiada, Capellari relembrou momentos marcantes de sua trajetória.

Folha Popular - Como era Tenente Portela quando o senhor chegou ao município?

Israel Capellari - Era muito diferente do que vemos hoje. As ruas eram de chão batido, havia poucas casas e muita mata ao redor. Nossa primeira moradia ficava próxima de onde hoje está a Caixa Econômica Federal. Era uma casa simples de madeira. A cidade era pequena, mas já existia um espírito muito forte de trabalho e união entre as famílias.

FP - Como foi sua infância naquela época?

Capellari - Foi uma infância de muito trabalho. Com oito ou nove anos eu já ajudava na lavoura, carpindo e fazendo diversos serviços. Naquele tempo quase ninguém usava calçado. A gente andava sempre descalço. Lembro das grandes fogueiras de São João. Eu atravessava correndo sobre as brasas sem me queimar. Depois percebemos que isso acontecia porque a sola dos nossos pés era muito resistente de tanto andar descalço.

FP - O senhor enfrentou momentos difíceis na juventude?

Capellari - Sim. Houve situações marcantes. Em uma ocasião fui atacado por um boi enquanto trabalhava e fui lançado longe. Também sofri um acidente sério com um carrinho improvisado e precisei ficar internado por cerca de 30 dias. Eram tempos difíceis, mas isso ajudava a formar o caráter das pessoas.

FP - Como eram os estudos naquele período?

Capellari - Muito diferentes de hoje. Nós escrevíamos em uma pedra de ardósia. Fazíamos as lições, anotávamos e depois apagávamos tudo para reutilizar. Não existiam os materiais que existem atualmente. O que aprendíamos precisava ficar guardado na memória.

FP - Quando começou sua vida profissional?

Capellari - Muito cedo. Com 14 anos comecei a trabalhar no Grupo Rosa Lopes, uma das maiores empresas da época. Trabalhei inicialmente na classificação e enfardamento de fumo. Depois fui aprendendo outras funções, passei para a loja e mais tarde me tornei gerente e chefe de compras. Foi uma escola muito importante para minha vida profissional.

FP - O senhor também serviu ao Exército. Como foi essa experiência?

Capellari - Servi em Santiago, na Cavalaria. Foi uma experiência muito importante. Lá aprendi datilografia, algo que utilizei por toda a vida. Em pouco tempo me tornei cabo e tive oportunidade de seguir carreira militar. Havia a possibilidade de ir para o Rio de Janeiro e continuar no Exército, mas decidi voltar para Tenente Portela e construir minha vida aqui.

FP - Como surgiu sua família?

Capellari - Casei aos 26 anos com Nadir Eickhoff. Construímos uma linda família e tivemos quatro filhos: Solange, Marcos, Luís e Iara. Paralelamente, continuei atuando no comércio e ampliando meus negócios.

FP - O senhor participou da construção do primeiro hospital de Tenente Portela. Como foi esse momento?

Capellari - Foi uma grande mobilização da comunidade. Cerca de 40 pessoas se uniram para tornar aquele sonho possível. Todos entendiam que o município precisava de uma estrutura de saúde. Foi um trabalho coletivo muito bonito. Mais tarde vieram as irmãs religiosas e ajudaram a consolidar o hospital. Tenho muito orgulho de ter participado desse processo.

FP - Como começou sua trajetória na vida pública?

Capellari - Primeiro fui eleito vereador. Depois assumi a presidência da Câmara Municipal e posteriormente fui prefeito de Tenente Portela por dois mandatos. Sempre procurei organizar as equipes de trabalho e investir em melhorias para o município. A administração pública exige dedicação e compromisso com as pessoas.

FP - Um dos episódios mais curiosos da história local envolve o aeroporto. O que o senhor recorda daquele período?

Capellari - Foi um projeto muito importante. Conseguimos construir uma pista de aproximadamente 1.400 metros, além do hangar e da infraestrutura necessária. Na época tínhamos três aeronaves DC-3 da Varig e mais um avião de pequeno porte ligado ao clube de aviação. Era algo muito avançado para a região. Infelizmente o projeto acabou não tendo continuidade, mas foi um período marcante para Tenente Portela.

FP - Ao longo da vida o senhor também viajou bastante pelo Brasil. O que essas experiências representaram?

Capellari - Viajei muito em função do comércio e também da vida pública. Conheci Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Cuiabá e Tocantins, entre outros lugares. Essas viagens ampliaram minha visão sobre administração, desenvolvimento e oportunidades. Sempre procurei observar o que dava certo em outras regiões e trazer ideias que pudessem contribuir para o crescimento de Tenente Portela.

FP - O senhor também foi um dos primeiros moradores a ter televisão em Tenente Portela. Como era acompanhar uma Copa do Mundo naquela época?

Capellari - Era muito diferente dos dias de hoje. Eu tinha uma televisão instalada em uma sala e os amigos, vizinhos e clientes se reuniam para assistir aos jogos da Seleção Brasileira. A imagem não era muito boa, muitas vezes aparecia com interferências, mas o som dava para escutar muito bem. Mesmo assim, era uma novidade extraordinária para a época. As pessoas ficavam horas acompanhando as partidas, torcendo juntas e comentando os lances. Era um ambiente de confraternização, onde a comunidade se reunia para viver aquele momento. Lembro que a sala ficava cheia durante os jogos da Copa do Mundo. Foi uma experiência muito marcante e mostra como a tecnologia evoluiu ao longo dos anos em Tenente Portela.

FP - O senhor acompanhou praticamente toda a evolução do município. Quais foram as maiores transformações que presenciou?

Capellari - Foram muitas mudanças. Vi surgir escolas, hospital, energia elétrica, rádio, pavimentação, asfalto e o crescimento do comércio. A cidade se desenvolveu muito. Quando cheguei aqui era uma comunidade pequena. Hoje é um município estruturado, com serviços, empresas e qualidade de vida. É gratificante ver tudo isso acontecer.

FP - O que sente ao olhar para essa trajetória de mais de nove décadas?

Capellari - Sinto gratidão. Trabalhei muito, participei de vários momentos importantes da história do município e construí minha vida aqui. Tenente Portela me deu oportunidades e fico feliz por ter contribuído de alguma forma para seu desenvolvimento.


Perfil

Nome: Israel Capellari
Idade: 93 anos
Data de nascimento: 14 de setembro de 1932
Naturalidade: Tuparendi (RS)
Chegada a Tenente Portela: Aos 7 anos de idade
Profissões: Agricultor, comerciante, militar e administrador público
Vida pública: Vereador, presidente da Câmara Municipal e prefeito por dois mandatos
Participação histórica: Colaborador na construção do primeiro hospital do município e protagonista de importantes projetos de desenvolvimento local
Legado: Testemunha viva da evolução de Tenente Portela ao longo de mais de nove décadas.

 

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