Nossa Terra, Nossa Gente - "Tenente Portela foi e é a minha vida", afirma a professora Suely Lurdes Marroni Müller
A série Nossa Terra, Nossa Gente segue resgatando histórias de homens e mulheres que ajudaram a construir Tenente Portela. Nesta edição, a entrevistada é a professora aposentada Suely Lurdes Marroni Müller, uma educadora que dedicou décadas à formação de crianças e jovens, participou ativamente da comunidade e acompanhou praticamente todas as transformações do município desde a infância.
Além da paixão pelo magistério, a música sempre ocupou um lugar especial em sua vida. Ainda jovem, estudou piano e acordeom, tornou-se professora de acordeom e fez da música uma companheira dentro e fora da sala de aula. Ao longo da carreira, alfabetizou centenas de crianças, exerceu a direção escolar e viu gerações inteiras passarem pelos corredores da escola. Aos 90 anos, prestes a completar 91, continua cultivando o gosto pelo teclado e pelo tricô, preservando uma memória privilegiada sobre a história do município.
Filha de uma família participativa na comunidade, dona Suely cresceu acompanhando o envolvimento do pai nas questões locais e aprendeu desde cedo a importância de contribuir para o desenvolvimento da cidade. Em sua trajetória, testemunhou a chegada da energia elétrica, da água encanada, o crescimento urbano e a evolução da educação. Com serenidade e gratidão, ela relembra momentos marcantes e compartilha valores que considera essenciais para as novas gerações.
Folha Popular - A senhora nasceu em Vespasiano Corrêa, mas construiu praticamente toda a sua história em Tenente Portela. Como foi sua infância e quais lembranças guarda daquele período?
Suely Lurdes Marroni Müller - Tive uma infância muito boa. Meus pais sempre nos deram condições de estudar e de viver bem. Tenho lembranças muito bonitas dos meus avós, dos meus tios, dos meus irmãos e da convivência em família. Foram anos felizes e que me ensinaram muitos valores.
FP - Quando aconteceu a mudança para Tenente Portela?
Suely - Vim para cá com 10 anos de idade. Minha irmã Marlene ainda era pequena. Hoje estou com 90 anos e completo 91 no dia 1º de agosto. Desde criança moro aqui e posso dizer que acompanhei praticamente toda a história do município.
FP - Como era Tenente Portela quando a senhora chegou?
Suely - Era uma vila pequena. Não existia água encanada nem energia elétrica. Tudo era na base da vela e do lampião. A água era buscada nas fontes e, mais tarde, meu pai construiu um poço que abastecia nossa família e também muitos moradores, principalmente da região da praça (hoje Praça do Banco do Brasil). Era uma realidade completamente diferente da que vemos hoje.
FP - Como as famílias viviam naquele tempo?
Suely - A vida era mais simples. Não havia geladeira como existe hoje. A carne era conservada na banha ou com sal. As pessoas trabalhavam muito, ajudavam umas às outras e valorizavam bastante a convivência em família.
FP - A senhora acompanhou praticamente todas as transformações do município. O que mais lhe marcou nesse processo?
Suely - Foi muito emocionante ver a cidade crescer. Lembro da chegada da energia elétrica. Foi uma verdadeira festa para toda a comunidade. Depois vieram a água encanada, as melhorias nas estradas e tantas outras conquistas. É gratificante olhar para trás e perceber o quanto Tenente Portela evoluiu.
FP - Seu pai também participou da vida comunitária. Esse exemplo influenciou sua forma de viver?
Suely - Sim. Meu pai sempre gostou de trabalhar pela comunidade e ajudar no que fosse preciso. Nós crescemos vendo esse exemplo dentro de casa. Aprendemos que participar da sociedade e contribuir para o bem comum faz diferença.
FP - A senhora precisou sair do município para continuar os estudos. Como era essa realidade naquela época?
Suely - Depois de estudar em Tenente Portela fui para Ijuí fazer o ginásio no Colégio Sagrado Coração de Jesus e, mais tarde, o magistério. Naquele tempo não existiam tantas oportunidades como existem hoje. Quem queria estudar precisava viajar para outras cidades e enfrentar muitas dificuldades.
FP - Quando percebeu que queria dedicar sua vida à educação?
Suely - Sempre gostei de estudar e de ensinar. Assim que concluí o magistério fui nomeada professora em Tenente Portela. Foi uma alegria muito grande poder voltar para minha cidade e trabalhar com aquilo que eu gostava.
Folha Popular - Como foi sua trajetória dentro da educação?
Suely - Trabalhei toda a minha carreira no Grupo Escolar da Sede, atual Escola Estadual Cléia Salete Dalberto. Fui professora alfabetizadora, depois diretora por muitos anos e mais tarde lecionei Psicologia na CNEC. Tenho muito orgulho da profissão que escolhi.
FP - O que mais marcou sua vida como professora?
Suely - O respeito entre professores e alunos. As crianças eram muito participativas e interessadas. Tenho muitas lembranças das atividades escolares, das apresentações, dos exercícios físicos e, principalmente, da alfabetização. Se pudesse, ainda hoje gostaria de voltar para uma sala de aula.
FP - Encontrar ex-alunos deve ser motivo de alegria...
Suely - Muito. É muito gratificante ver que eles cresceram, formaram suas famílias e seguiram seus caminhos. Saber que a gente contribuiu um pouquinho para essa formação é uma satisfação enorme.
Folha Popular - A senhora acredita que a educação mudou bastante ao longo dos anos?
Suely - Mudou muito. Hoje existem mais recursos, mais tecnologia e muito mais oportunidades. Mas continuo acreditando que o estudante precisa ter responsabilidade, dedicação e acompanhamento da família para aproveitar tudo isso.
FP - Além da educação, a música sempre esteve presente na sua vida. Como surgiu essa paixão?
Sueli - Aprendi piano e acordeom em Ijuí. Depois dei aulas de acordeom aqui em Tenente Portela. Hoje continuo tocando teclado. Gosto de boleros, tangos e de músicas que marcaram aquela época. A música sempre fez parte da minha vida.
FP - A música também ajudava no ambiente escolar?
Suely - Com certeza. A música aproxima as pessoas e torna tudo mais agradável. Sempre gostei de cantar com os alunos e participar das atividades da escola.
FP - Como a senhora gosta de passar os dias atualmente?
Suely - Gosto de fazer tricô e tocar teclado. São atividades que me dão alegria e ajudam a manter a mente ativa.
Folha Popular - A família também ocupa um lugar especial na sua história?
Suely - Sim. Casei em 1957 com Ciro da Cruz Müller, que foi tesoureiro da Prefeitura. Tivemos três filhos: Marcos, Marisa e Marlise. Hoje também tenho netos e bisnetos. A família sempre foi muito importante para mim.
FP - Depois de uma vida dedicada à educação, quais valores considera fundamentais para as novas gerações?
Suely - A sinceridade, a honestidade, a responsabilidade e o estudo. Também acredito muito na participação das pessoas na comunidade. Cada um pode contribuir para tornar a sociedade melhor.
FP - Que conselho a senhora deixa para os jovens?
Suely - Que estudem. Hoje existem muitas oportunidades que não existiam na minha época. Aproveitem essas oportunidades, busquem conhecimento, tenham uma profissão e nunca deixem de acreditar nos seus sonhos.
FP - Depois de tantas décadas vivendo em Tenente Portela, qual sentimento permanece?
Suely - Gratidão. Sempre procurei fazer o melhor como professora e como cidadã. Construí minha família aqui, fiz grandes amizades e acompanhei o crescimento da cidade. Posso dizer, com muito orgulho, que Tenente Portela foi e continua sendo a minha vida.
FP - Para encerrarmos, que mensagem a senhora gostaria de deixar aos moradores de Tenente Portela?
Suely - Gostaria de dizer que continuem trabalhando unidos pelo desenvolvimento da nossa cidade. Onde existe união, existe progresso. Que as famílias nunca deixem de incentivar as crianças e os jovens a estudar, porque a educação transforma vidas. Desejo que todos sejam felizes, alcancem seus objetivos e que Deus continue abençoando Tenente Portela e toda a nossa gente.
Nome: Suely Lurdes Marroni Müller
Idade: 90 anos (completa 91 em 1º de agosto)
Data de nascimento: 1º de agosto de 1935
Naturalidade: Vespasiano Corrêa (na época, distrito de Guaporé/RS)
Chegada a Tenente Portela: Aos 10 anos de idade
Profissão: Professora aposentada
Atuação profissional: Professora alfabetizadora, diretora do Grupo Escolar da Sede (atual Escola Estadual Cléia Salete Dalberto) e professora de Psicologia na CNEC.
Outras atividades: Pianista, acordeonista e professora de acordeom
Família: Casada em 1957 com Círio da Cruz Miller (in memoriam), mãe de Marcos, Marisa e Marlise, avó e bisavó.
Legado: Educadora que dedicou a vida à formação de gerações de portelenses e acompanhou as principais transformações de Tenente Portela, preservando a memória da história e do desenvolvimento do município.

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