Folha Popular – Dona Waldirene, conte um pouco da sua infância. Como era a vida em Ajuricaba e quais lembranças a senhora guarda daquele período?
Waldirene Garbinato Soares – Tenho muitas lembranças boas da infância. Uma pessoa muito importante foi o senhor Pedrogildo dos Santos, que trabalhava com nossa família e sempre esteve presente na nossa criação. Foram tempos simples, mas muito felizes.
FP – A senhora nasceu em Ajuricaba quando o município ainda pertencia a Ijuí. Como surgiu o interesse pelos estudos?
Waldirene – Naquela época todos nós éramos incentivados a estudar. Ir à escola fazia parte da educação que recebíamos em casa e meus pais sempre nos estimularam a continuar estudando.
FP – A senhora cursou o Magistério no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Ijuí. O que a levou a escolher a profissão de professora?
Waldirene – Naquele tempo praticamente esse era o caminho das jovens que estudavam. Fazíamos o Curso Normal e nos tornávamos professoras. Era uma profissão muito respeitada e que sempre exerci com muito orgulho.
FP – Em 1961 a senhora veio morar em Tenente Portela, justamente no ano em que se casou com Antoninho Conceição da Silva Soares. Como foi essa mudança?
Waldirene – Vim casada para Tenente Portela e gostei da cidade desde o primeiro momento. Muitas colegas que haviam estudado comigo em Ijuí já moravam aqui, então minha adaptação foi muito tranquila. Sempre fui muito bem recebida pela comunidade.
FP – Como era Tenente Portela naquela época? As ruas, as estradas e a infraestrutura eram muito diferentes?
Waldirene – Eram muito diferentes. Não havia calçamento e a cidade era bastante simples. As ruas eram de chão e convivíamos naturalmente com animais pelas vias. A primeira rua calçada foi justamente esta em frente à minha casa, hoje Romário Rosa Lopes, que antigamente era a Rua Guarani. As estradas também eram difíceis, cheias de pedras e curvas.
FP – A senhora iniciou sua carreira como professora, foi diretora da Escola Zona Oeste por cerca de dez anos e depois coordenadora da Escola Cléia Salete Dalberto. Como eram as escolas naquela época?
Waldirene – Sempre gostei muito da educação. Dirigir uma escola era algo que fazia com muita satisfação. Tenho muitas saudades daquele período. Os alunos eram muito respeitosos e havia um grande comprometimento entre professores, direção e comunidade escolar.
FP – Muitos alunos passaram por suas salas de aula. Existe alguma lembrança especial desse período?
Waldirene – Tenho muitas lembranças boas. Lecionava História e sempre procurava contar histórias que despertassem o interesse dos alunos. Existia muito respeito entre professores e estudantes, e isso tornava o trabalho muito gratificante.
FP – Em 1973 a senhora concluiu o curso de Direito, algo pouco comum para uma mulher na época. Como surgiu esse novo desafio?
Waldirene – Depois de completar 25 anos no magistério resolvi seguir um novo caminho. Como já estava formada em Direito, surgiu a oportunidade de atuar na Defensoria Pública, uma área onde também pude contribuir muito com a comunidade.
FP – Em 1982 a senhora assumiu a Defensoria Pública de Tenente Portela, permanecendo até 1997. Como era esse trabalho?
Waldirene – Era muito diferente dos dias atuais. Não existiam os recursos tecnológicos e nem leis importantes que hoje ajudam bastante, como a Lei Maria da Penha. Muitas vezes precisávamos agir apenas com os instrumentos que tínhamos e atender pessoas muito humildes, que não tinham condições de contratar um advogado.
Passei muitas noites sendo chamada pela polícia para acompanhar ocorrências e sempre procurei cumprir minha missão.
FP – Existe algum caso que tenha marcado sua atuação como defensora pública?
Waldirene – Um dos casos que mais me marcou foi o atendimento a um senhor encontrado vivendo em condições extremamente precárias. Fomos até o local, conseguimos levá-lo ao hospital para receber atendimento e dignidade. Infelizmente ele faleceu alguns dias depois, mas pelo menos teve seus últimos dias sendo cuidado. São situações que nunca saem da memória.
FP – Ao longo dessas décadas, a senhora acompanhou praticamente toda a transformação de Tenente Portela. O que mais mudou desde a sua chegada e como avalia o momento que o município vive atualmente?
Waldirene – Mudou praticamente tudo. Quando cheguei, a cidade era bem diferente. Aos poucos vieram o calçamento, as melhorias na infraestrutura, o crescimento do comércio e o desenvolvimento do município.
Hoje vejo Tenente Portela muito mais organizada e bonita. A administração também evoluiu bastante. Acho que a cidade está muito bem cuidada e vejo que o prefeito Rosemar Sala está fazendo um bom trabalho. Está no segundo mandato e, na minha opinião, tem contribuído para deixar Tenente Portela cada vez mais convidativa para quem mora aqui e para quem nos visita.
FP – Como eram as viagens naquela época?
Waldirene – Eram bastante difíceis. Não existia asfalto e viajar para Três Passos ou Frederico Westphalen significava enfrentar muitos quilômetros de estrada de chão, cheia de curvas e pedras. Mas fazia parte da realidade daquele tempo.
FP – Além da vida profissional, a senhora construiu sua família em Tenente Portela. O que representa essa trajetória?
Waldirene – Minha família sempre foi minha maior alegria. Meu esposo Antoninho sempre me apoiou. Tivemos dois filhos, Jorge Antônio e Jorge Luiz, que seguiram carreira no Direito e se tornaram delegados de Polícia. Hoje também tenho quatro netos que são motivo de muito orgulho.
FP – Entre tantos anos dedicados à educação e ao Direito, qual conquista considera mais especial?
Waldirene – Tenho orgulho de toda minha trajetória. Trabalhei muito e sempre procurei ajudar as pessoas. Também tive colegas extraordinários tanto na educação quanto na área jurídica. Foram profissionais que marcaram minha caminhada.
FP – Se pudesse voltar no tempo e conversar com aquela jovem professora que chegou a Tenente Portela em 1961, que conselho daria?
Waldirene – Diria apenas que tudo valeu a pena. E, se tivesse que viver tudo novamente, faria exatamente a mesma história.
FP – Para encerrarmos, que mensagem a senhora deixa às novas gerações?
Waldirene – Estudem. O estudo abre caminhos e ninguém tira o conhecimento de uma pessoa.
Trabalhem com dedicação, sejam honestos, respeitem as pessoas e valorizem a educação. Foi isso que guiou toda a minha vida e acredito que continua sendo o melhor caminho para construir um futuro digno.
Nome: Waldirene Garbinato Soares
Naturalidade: Ajuricaba (na época pertencente a Ijuí)
Data de nascimento: 4 de dezembro de 1936
Família: Casada com Antoninho Conceição da Silva Soares, mãe de Jorge Antônio e Jorge Luiz e avó de quatro netos.
Profissão: Professora, diretora de escola, coordenadora pedagógica e defensora pública aposentada.
Sensação
Vento
Umidade