Aos 93 anos, Rubens Ribeiro dos Santos carrega uma trajetória diretamente ligada à história de Tenente Portela. Nascido em 5 de março de 1933, na antiga Redenção, hoje Redentora, ele viveu parte da infância em Ijuí e Redentora antes de seguir para Santo Ângelo, onde estudou.
Em 1953, casou-se com Isabela Biguelini dos Santos, com quem teve quatro filhos. Pouco tempo depois, em 1954 ou 1955, chegou a Tenente Portela, onde construiu sua vida profissional e familiar. Após a separação, teve um segundo matrimônio, com Eunice, com quem teve mais um filho. Também teve um filho fora do casamento. Ao todo, são seis filhos, 12 netos e cinco bisnetos.
Com a emancipação do município, Rubens participou dos primeiros momentos de organização da Administração Municipal. Mais tarde, ingressou no serviço público por concurso e também exerceu mandato de vereador por 12 anos.
Filiado ao antigo PTB, Rubens viveu de perto um dos períodos mais difíceis da história política brasileira. Durante a ditadura militar, foi perseguido e preso em diferentes ocasiões. Uma das lembranças mais marcantes daquele período envolve seu filho Jorge, ainda criança, durante uma visita ao pai no presídio de Três Passos.
Formado em Direito em Cruz Alta, em 1977, Rubens também destaca a formação profissional como um divisor de águas em sua trajetória. Ao olhar para Tenente Portela de hoje, demonstra admiração pelo desenvolvimento do município e defende a união entre comunidade e poder público.
Na entrevista à série Nossa Terra, Nossa Gente, ele também fala sobre família, amizades, política, fé, educação e deixa uma mensagem para as novas gerações.
Folha Popular: Onde e quando o senhor nasceu?
Rubens Ribeiro dos Santos: Eu nasci na antiga cidade de Redenção, hoje Redentora, no dia 5 de março de 1933. Hoje estou com 93 anos completos.
Folha Popular: Como foi sua infância em Redentora?
Rubens: Nasci em Redentora e meus pais moraram lá por bastante tempo. Aos sete anos de idade, mais ou menos, passamos a residir em Ijuí. Meu pai tinha uma casa de negócios na Rua do Comércio, na esquina com a 7 de Setembro. Era a Casa Ribeiro.
Ficamos em Ijuí por alguns anos. Em 1942, meu pai faleceu, depois de ser acometido por uma doença e passar algum tempo em tratamento. Depois disso, voltamos para Redentora, onde moravam meus avós e onde tínhamos propriedade.
Folha Popular: E depois o senhor foi para Santo Ângelo?
Rubens: Sim. Permanecemos em Redentora até eu ter aproximadamente 16 anos. Depois fomos morar em Santo Ângelo, onde frequentei o ginásio. Ficamos lá por cerca de cinco anos.
Folha Popular: Onde o senhor se casou e como foi constituída sua família ao longo da vida?
Rubens: Casei em Cachoeira do Sul, no interior, em Cerro Branco, em 1953. Minha esposa era Isabela Biguelini dos Santos. Nosso matrimônio foi no dia 2 de maio de 1953. Com ela tive quatro filhos: Cleusa Maria, José Rubens, Jorge Ricardo e Clarice Regina. Depois da separação, tive um segundo matrimônio, com Eunice, com quem tive mais um filho. Também tive um filho fora do casamento. Ao todo, são seis filhos, 12 netos e cinco bisnetos.
Folha Popular: Quando o senhor chegou a Tenente Portela?
Rubens: Vim para cá em 1954 ou 1955. Quando Tenente Portela foi emancipado, eu já estava morando aqui. O primeiro prefeito foi o engenheiro Arthur Ambros.
Folha Popular: Como começou sua vida profissional em Tenente Portela?
Rubens: Primeiro trabalhei com um parente que tinha uma casa de negócios aqui. Depois, com a emancipação de Tenente Portela, fui convidado para ajudar a organizar os primeiros funcionamentos da Administração Municipal.
Fiquei trabalhando até a abertura de um concurso. Fiz o concurso, passei e me tornei funcionário público efetivo. Trabalhei na Prefeitura e também na Câmara de Vereadores.
Folha Popular: O senhor também foi vereador por 12 anos. Como entrou na política?
Rubens: Ingressei na política no antigo PTB, que foi o único partido ao qual fui filiado até hoje. Era o partido de Getúlio Vargas e Alberto Pasqualini.
Folha Popular: E foi justamente nesse período que começou a ditadura militar. Como o senhor viveu aquele momento?
Rubens: Em 1964 veio a ditadura de 31 de março. Eu era vereador. Na condição de vereador, um político municipal, mesmo que seja uma miniatura, as perseguições eram gigantescas.
Bastava não ser da Revolução para ser perseguido. Eu fui preso algumas vezes. Naquela época, acontecia qualquer coisa e já recolhiam o Rubens.
Folha Popular: Existe alguma lembrança daquele período que tenha ficado especialmente marcada?
Rubens: Eu estava preso no presídio de Três Passos numa ocasião, e minha mulher foi levar os filhos para eu ver. Chegando lá, tinham arrumado uma caminha de campanha para mim.
O Jorge, meu filho, era pequeno. Ele deitou na cama, aos meus pés. Quando chegou a hora de partir, de voltar para Tenente Portela, ele dizia: “Pai, deixa eu ficar aqui. Eu vou dormir aqui nos teus pés”.
Ele devia ter dois ou três anos. Aquilo me comoveu muito. Chorei a noite inteira. São passagens que nenhuma delas foram boas, todas trazem recordações até devastadoras. Mas essa me tocou profundamente.
Folha Popular: Houve pessoas que foram importantes para o senhor naquele período?
Rubens: Eu faço referência à memória do René Fagundes da Mota, porque realmente foi um grande amigo meu. Ele era policial civil e levava minha mulher e meus filhos para Três Passos para me visitar.
Éramos adversários políticos por sigla partidária, mas, como solidariedade humana, a amizade era inquebrantável com o René. E isso foi muito importante para mim.
Nessas situações, você pensa em contar com todo mundo, mas sobra pouco. Ninguém quer se envolver. As amizades que realmente ficam junto contigo são poucas. A solidariedade humana é muito fantasiosa. Você vê a cara, mas não vê o coração.
Folha Popular: Em que momento o senhor começou a se sentir mais seguro e preparado para enfrentar aquela realidade?
Rubens: Depois da minha formação profissional. Depois que botei os pés no chão e comecei a sentir e conhecer melhor o Direito.
Folha Popular: O senhor se formou em Cruz Alta, em 1977. Como foi conciliar os estudos com a vida profissional?
Rubens: Foi em Cruz Alta, em 1977. Eu ia nos fins de semana. Estudava sexta, sábado e domingo e voltava domingo à noite. Ia por conta própria e, assim que podia, estava voltando.
Folha Popular: O senhor sempre foi ligado a lideranças políticas como João Goulart e Leonel Brizola. Como enxerga hoje aquele período?
Rubens: Na época, a gente seguia muito as lideranças partidárias. Eu sempre fui janguista e brizolista. Hoje vejo que não havia necessidade de tanto fervor, tanta paixão.
Mas, naquela época, você seguia um líder. Quando começou a perceber que muitas coisas da Revolução tinham uma intenção, mas estavam sendo realizadas de outra forma, a decepção aumentou. E aí veio a revolta contra a Revolução.
Talvez essas razões tenham contribuído para que eu fosse perseguido, porque estava sempre envolvido nos conflitos de ideias.
Folha Popular: O senhor acompanhou praticamente toda a transformação de Tenente Portela. Como vê o município atualmente?
Rubens: Vejo um povo mais civilizado, mais dedicado. Hoje não existe uma política tão ferrenha. Cada um está no seu partido, mas cada um cuida dos seus interesses pessoais, e a política é secundária.
Não existe mais aquele fervor, aquela paixão, aquela crendice. Não há mais tantos apaixonados pela política. E o excesso disso é nocivo para a sociedade.
Folha Popular: E como o senhor avalia o desenvolvimento de Tenente Portela?
Rubens: Eu vejo pujança. Admiro e elogio as administrações que se sucederam. Todas, sem observação, trabalharam para um desenvolvimento comum.
Também vejo a pujança do povo, que mudou um pouco aquela mentalidade política e passou a tratar de desenvolver a coisa mesmo, que é o município e a sociedade.
Folha Popular: O senhor também destaca o trabalho realizado pelo Hospital Santo Antônio. Qual a importância da instituição para Tenente Portela?
Rubens: O hospital é hoje um orgulho de Tenente Portela. O trabalho que é desenvolvido ali trouxe nome para o município e elevou Tenente Portela a um segundo patamar.
Eu faço referência à Dona Mirna e aos demais. Às vezes, a camada intermediária é a que desenvolve e uma cabeça administra. A Administração Municipal também tem seu papel, mas contou com o apoio da comunidade, que apoia o desenvolvimento de Tenente Portela.
Folha Popular: Depois de tantas décadas vivendo aqui, o que significa para o senhor ser portelense?
Rubens: Seria injusto se eu não fizesse um elogio à Administração, que tem voltado seu pensamento para o desenvolvimento de Tenente Portela e encontrou também, de braços abertos, a comunidade dando apoio e respaldo para que isso aqui prospere.
Folha Popular: Que conselho o senhor deixaria para os jovens?
Rubens: Eu perdi meu pai com oito anos de idade. Graças à minha mãe, que teve a criação dos dois filhos, aprendi muito.
Gostaria que os jovens soubessem que o desenvolvimento de um homem depende muito dele próprio. Não é apenas de outros empurrando ou estendendo a mão.
Acho que precisamos andar de mãos dadas, a comunidade com a Administração, para o desenvolvimento e o interesse comum de todos.
Folha Popular: O senhor construiu uma família ao longo da vida. O que ela representa para o senhor e que mensagem gostaria de deixar para seus filhos, netos e bisnetos?
Rubens: Eu pediria que observassem a frase que diz: “A união faz a força”. Entre eles, haja unidade. Não dispersem, não se abandonem.
Eu tenho todos esses filhos, mas eles entre si se relacionam perfeitamente. Reconhecem o grau de consanguinidade que existe entre eles.
Folha Popular: O senhor também teve sua trajetória registrada no livro A Odisseia de um Subversivo, publicado em 2009. Como surgiu esse trabalho?
Rubens: O livro foi feito por Theobaldo Branco. Ele me procurou na época para contar as histórias. Eu relatava o que havia acontecido e ele foi organizando e montando o livro.
Folha Popular: Depois de tudo o que viveu, como o senhor resumiria sua maneira de enxergar a vida?
Rubens: Eu não diria uma frase, mas uma observação. Acho que o ser humano veio ao mundo não para desfrutar os sabores da vida, mas compartilhar os sabores. É enfrentar as boas e as más situações.
Eu recomendaria que tenham sempre um canto do olho vendo o irmão comum, que é todos. Olhar sempre com bons olhos e estender as mãos. Onde for possível, estenda-se as mãos. E tenha fé.
Sensação
Vento
Umidade