A história econômica brasileira ajuda a explicar uma contradição que permanece atual: o país possui enorme riqueza natural, um dos maiores mercados consumidores do mundo, universidades, empresas competitivas e capacidade científica, mas ainda encontra dificuldades para transformar essas vantagens em uma economia industrial e tecnológica capaz de competir nas áreas mais sofisticadas do mercado mundial.
Durante o Império e a República Velha, o Brasil consolidou uma economia voltada à exportação de produtos primários, principalmente o café. A industrialização ganhou força somente no século XX, especialmente a partir da década de 1930, quando as crises externas e as dificuldades de importação estimularam a produção nacional. Com Getúlio Vargas e, posteriormente, Juscelino Kubitschek, o Estado passou a desempenhar papel decisivo na construção da indústria de base, da infraestrutura e de setores estratégicos.
Esse processo criou um parque industrial importante, mas também deixou uma característica que atravessaria as décadas seguintes: a forte presença do Estado no financiamento do desenvolvimento, a dependência de capital externo e a concentração da economia em grandes setores capazes de gerar divisas rapidamente.
A crise da dívida e a inflação dos anos 1980 reduziram a capacidade de investimento público. Na década seguinte, a estabilização da moeda e a abertura comercial expuseram a indústria brasileira à concorrência internacional antes que muitos setores tivessem alcançado produtividade e tecnologia suficientes para competir em igualdade de condições.
A partir dos anos 2000, a forte demanda internacional por soja, minério de ferro, petróleo, carne e outros produtos consolidou novamente as commodities como uma das principais fontes de riqueza e de entrada de dólares no país. O agronegócio, a mineração e a energia tornaram-se setores altamente competitivos internacionalmente e passaram a ocupar posição central na economia brasileira.
O problema não está nessas atividades. Elas são fundamentais para o país. O problema surge quando a estrutura econômica e política passa a privilegiar permanentemente aquilo que já é competitivo, deixando em segundo plano os setores que precisam de tempo, investimento e proteção estratégica para se desenvolver.
É nesse ponto que a questão econômica se transforma em questão política.
Setores ligados ao agronegócio, à mineração, à energia e a outras atividades primário-exportadoras possuem forte capacidade de organização e influência no Congresso Nacional. Essa presença não significa que todos os parlamentares defendam exatamente os mesmos interesses, nem que o Parlamento seja composto exclusivamente por representantes desses setores. Significa que existe uma força política organizada em torno de atividades econômicas já consolidadas e altamente rentáveis.
Quando essa força se torna predominante, ela tende a orientar as prioridades do Estado para a manutenção e expansão das atividades que já apresentam retorno econômico. Crédito, infraestrutura, incentivos, legislação, logística e políticas públicas passam a responder, em grande medida, às necessidades dos setores que possuem maior capacidade de pressão política.
O risco está em transformar essa vantagem econômica em hegemonia política.
Enquanto o extrativismo e os setores primário-exportadores mantiverem predominância na definição das prioridades nacionais, outros campos econômicos terão maior dificuldade para conquistar espaço, capital e políticas de longo prazo. Indústria de alta tecnologia, semicondutores, biotecnologia, máquinas sofisticadas, equipamentos médicos, inteligência artificial e outras atividades intensivas em conhecimento exigem investimentos elevados e retorno demorado. Sem uma estratégia política que lhes dê condições de desenvolvimento, dificilmente conseguirão competir com setores que já possuem vantagens naturais, escala e mercados consolidados.
Não se trata, portanto, de substituir o agronegócio ou a mineração pela indústria. Trata-se de impedir que a força econômica de determinados setores se transforme em bloqueio à diversificação da economia.
O Brasil precisa utilizar suas riquezas naturais como base para uma nova etapa de industrialização. O agronegócio pode impulsionar máquinas, sensores, softwares, fertilizantes, biotecnologia e inteligência artificial. A mineração pode estimular siderurgia avançada, automação, equipamentos e novos materiais. O petróleo pode fortalecer a indústria petroquímica e a engenharia nacional. A biodiversidade pode abrir espaço para a indústria farmacêutica e biotecnológica.
Para isso, é necessário criar condições para que o investimento produtivo e tecnológico seja mais atrativo. Isso envolve crédito de longo prazo, infraestrutura, educação técnica, pesquisa científica, integração entre universidades e empresas, segurança regulatória e uma política industrial estável, com metas claras e avaliação permanente dos resultados.
O Estado deve ter papel estratégico, mas não substituir a iniciativa privada. Deve criar as condições para que novas empresas e setores possam surgir, crescer e competir. E o Parlamento precisa representar não apenas os interesses econômicos que já possuem força, mas também aqueles que representam o futuro produtivo do país.
Esse é o ponto central da superação do modelo: não retirar espaço de quem já produz, mas abrir espaço para quem ainda precisa crescer.
O Brasil não precisa escolher entre campo e indústria, entre commodities e tecnologia ou entre Estado e iniciativa privada. Precisa construir uma economia em que a riqueza gerada pelo campo, pelas minas e pela energia ajude a financiar uma sociedade industrial, científica e tecnológica mais complexa.
Superar o modelo primário-exportador significa, portanto, transformar vantagem natural em capacidade tecnológica. Significa produzir mais conhecimento a partir das universidades, mais indústria a partir dos recursos naturais e mais valor dentro do país.
O desafio não é abandonar aquilo que o Brasil sabe fazer bem. É impedir que aquilo que hoje gera riqueza determine sozinho aquilo que o país será capaz de produzir amanhã.
Sensação
Vento
Umidade