Na continuidade da série de entrevistas com profissionais e médicos do Hospital Santo Antônio (HSA), o Folha Popular conversa, nesta edição, com o médico pneumologista Ricardo Henrique Miranda. Natural de Minas Gerais, ele atua no HSA desde abril de 2025, com atendimento ambulatorial e acompanhamento de pacientes internados, especialmente nos casos relacionados às doenças respiratórias. Na entrevista, Ricardo fala sobre sua trajetória, o trabalho desenvolvido na instituição, os principais problemas respiratórios atendidos e a importância do debate sobre o tabagismo, tema do Simpósio de Clínica Médica promovido pelo hospital.
Folha Popular – Para começarmos, conte um pouco sobre sua formação e trajetória profissional até chegar à pneumologia.
Ricardo Henrique Miranda – Sou natural de Minas Gerais, onde nasci, cresci e fiz minha formação inicial. Cursei Medicina em Itaúna e, depois de formado, trabalhei na área de Saúde da Família, em Bambuí, durante o início da pandemia.
Posteriormente, fiz residência em Clínica Médica, em Divinópolis. A pneumologia sempre foi uma área pela qual tinha grande interesse e, quando chegou o momento de realizar a especialização, fui aprovado em dois processos seletivos e escolhi o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Vim para o Rio Grande do Sul em 2023 para iniciar a residência em Pneumologia, concluída em fevereiro de 2025. Ainda durante esse período, soube da demanda por um pneumologista no Hospital Santo Antônio, entrei em contato com a direção e vim conhecer a instituição e a cidade. Desde abril de 2025, iniciei meu trabalho em Tenente Portela.
FP – Como é desenvolvido atualmente o trabalho da pneumologia no Hospital Santo Antônio?
Ricardo – Atualmente, atuo principalmente no ambulatório e na enfermaria do hospital. Os pacientes chegam encaminhados pela rede de saúde dos municípios parceiros e realizamos atendimentos ambulatoriais duas vezes por semana, além dos atendimentos por planos de saúde.
Também atuo como um dos médicos responsáveis pela Clínica Médica e pela enfermaria, juntamente com a doutora Samantha. Uma parcela importante das internações do hospital envolve situações respiratórias, e esses casos acabam sendo direcionados com maior frequência para minha área de atuação.
Hoje, são atendidos aproximadamente 55 a 60 pacientes por mês no ambulatório, além das avaliações realizadas entre os pacientes internados.
FP – Quais são as doenças respiratórias mais frequentes entre os pacientes atendidos pelo HSA?
Ricardo – As pneumonias e outras infecções respiratórias representam uma demanda importante. Também atendemos casos de tuberculose, doenças relacionadas ao tabagismo, como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, a DPOC, além de asma, enfisema pulmonar e câncer de pulmão.
No caso dos tumores pulmonares, temos a possibilidade de trabalhar em conjunto com a cirurgia torácica, o que amplia a capacidade de atendimento dentro do próprio hospital.
FP – Quais sintomas devem servir de alerta para que uma pessoa procure avaliação médica?
Ricardo – A tosse persistente é um sinal importante, especialmente quando dura mais de duas semanas. Quando está associada à febre prolongada, perda de peso, falta de apetite, prostração ou presença de secreção com sangue, merece uma investigação.
A falta de ar também deve sempre ser avaliada. Esses são alguns sinais de alerta, principalmente em pessoas que têm ou tiveram histórico de tabagismo.
FP – O Hospital Santo Antônio vem ampliando sua estrutura e seus serviços. De que maneira isso contribui para o atendimento dos pacientes com doenças respiratórias?
Ricardo – Essa evolução ocorre tanto na estrutura tecnológica quanto no material humano. A chegada de novos equipamentos amplia as possibilidades de diagnóstico e auxilia no planejamento de diferentes tratamentos.
Mas destaco também a chegada de novas especialidades. A cirurgia torácica, por exemplo, abriu caminho para uma ampliação importante da estrutura voltada às doenças do tórax. Hoje temos especialistas com experiência nessas áreas e possibilidades de realizar procedimentos diagnósticos, como biópsias cirúrgicas e exames minimamente invasivos.
Essa combinação entre estrutura física, tecnologia e profissionais especializados melhora a capacidade de diagnóstico e tratamento dos pacientes.
FP – Nesta semana, o HSA realiza um Simpósio de Clínica Médica com o tema “Tabagismo e doenças respiratórias”. Por que esse assunto continua sendo tão importante?
Ricardo – O Brasil teve um avanço importante no controle do tabagismo. Na década de 1980, a prevalência de fumantes era de cerca de 40% da população adulta brasileira. Hoje, esse percentual está em torno de 12% a 13%, resultado de políticas públicas, restrições ao consumo em ambientes públicos, aumento da tributação sobre o tabaco e outras medidas de controle.
Apesar dessa redução significativa, esse percentual ainda representa um grande impacto para a saúde pública. Aproximadamente 170 mil mortes por ano no Brasil estão relacionadas ao tabagismo, além de um custo estimado em cerca de R$ 150 bilhões para o sistema de saúde e para a economia, valor equivalente a aproximadamente 1,5% a 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
O tabagismo provoca doenças, gera internações e afeta não apenas o fumante, mas também toda a sua família. Quando uma pessoa desenvolve uma doença grave relacionada ao cigarro, muitas vezes passa a necessitar de cuidados permanentes, o que gera sofrimento, perda de autonomia e também consequências sociais e econômicas.
Por isso, mesmo com os avanços obtidos nas últimas décadas, ainda é fundamental manter o tema em debate, ampliando a informação e reforçando as ações de prevenção e combate ao tabagismo.
FP – Além do câncer de pulmão, quais são as principais doenças relacionadas ao tabagismo?
Ricardo – O tabagismo é uma condição que afeta todo o organismo. Além do câncer de pulmão, está relacionado a diversos outros tipos de câncer e também à DPOC, uma doença que reúne alterações como o enfisema pulmonar e a bronquite crônica.
A DPOC pode provocar falta de ar, redução da oxigenação e, em casos mais graves, levar à necessidade de uso contínuo de oxigênio.
O tabagismo também aumenta os riscos de doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral, além de afetar a circulação e outros órgãos. Portanto, não é um problema limitado aos pulmões.
FP – Os cigarros eletrônicos têm atraído principalmente o público jovem. O que se sabe atualmente sobre os riscos desses dispositivos?
Ricardo – Ainda precisamos de mais tempo e estudos para compreender completamente os efeitos dos cigarros eletrônicos a longo prazo. Mas já sabemos que eles não são inofensivos.
As substâncias utilizadas variam entre fabricantes e muitas delas podem apresentar componentes tóxicos. Não se trata apenas de vapor de água. O usuário inala uma mistura de substâncias que pode causar danos ao organismo.
Como esses dispositivos se popularizaram mais recentemente, ainda não temos estudos de longo prazo suficientes para dimensionar exatamente todos os riscos. Mas existem substâncias semelhantes às presentes no tabagismo tradicional, e há uma preocupação importante em relação ao aumento da experimentação entre adolescentes e jovens.
FP – Para quem fuma há muitos anos, abandonar o cigarro ainda traz benefícios para a saúde?
Ricardo – Sempre há benefício em parar de fumar, independentemente da idade ou mesmo da existência de uma doença relacionada ao tabagismo.
Naturalmente, a função pulmonar diminui ao longo da vida. No fumante, essa perda acontece de forma muito mais acelerada. Quando a pessoa para de fumar, conseguimos reduzir essa velocidade de perda da função pulmonar.
Na prática, isso pode significar mais autonomia e melhor qualidade de vida. A pessoa pode preservar por mais tempo sua capacidade de realizar atividades do cotidiano e diminuir as chances de dependência de oxigênio e de limitações importantes.
FP – Por que é tão difícil abandonar o cigarro e qual é a importância do acompanhamento profissional?
Ricardo – O tabagismo envolve dependência química, principalmente da nicotina, mas também uma importante dependência psicológica. Muitas vezes, o cigarro passa a fazer parte da rotina e da forma como a pessoa enfrenta situações de ansiedade, angústia e outros problemas.
Por isso, deixar de fumar não é apenas retirar a nicotina. É necessário compreender todo esse processo. O tratamento pode envolver medicamentos, quando indicados, além de acompanhamento profissional, terapia cognitivo-comportamental, atividade física e mudanças nos hábitos de vida.
É importante que a pessoa entenda que não precisa enfrentar esse processo sozinha e que existem formas de tratamento e acompanhamento.
FP – Para encerrar, qual mensagem o senhor deixa para os fumantes e para a comunidade? E qual é a importância do simpósio promovido pelo HSA?
Ricardo – A principal mensagem é que, se a pessoa tem vontade de parar de fumar, ela não está sozinha e sempre haverá benefício nessa decisão. Existem tratamentos e estratégias que podem ajudar durante o processo. Também é importante manter a vacinação em dia e praticar atividades físicas como forma de prevenção das doenças respiratórias.
Em relação ao simpósio, o Hospital Santo Antônio entende que também tem o papel de disseminar conhecimento e promover a atualização científica. O evento reunirá aproximadamente 170 inscritos, entre estudantes e profissionais de diferentes áreas da saúde, com participação de instituições como Unijuí, URI, UCEFF de Itapiranga, Unopar, Cetren e outras instituições da região.
O Simpósio de Clínica Médica será realizado na sexta-feira, 28, no Centro Municipal de Cultura de Tenente Portela. A programação contará com apresentação de trabalhos durante a tarde e palestras a partir das 17h30min.
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