A história de Horacy Gomes dos Santos se confunde com parte da própria trajetória de Tenente Portela e do tradicionalismo regional. Nascido em 30 de março de 1938, no então distrito de Campo Novo, pertencente a Palmeira das Missões, viveu desde cedo uma rotina ligada ao campo. Ainda adolescente, acompanhou tropas de mulas por diferentes caminhos do Noroeste gaúcho e conheceu Tenente Portela antes mesmo de morar definitivamente no município.
Aos 18 anos, depois de experiências como tropeiro e trabalhador rural, ingressou no Exército e posteriormente na Brigada Militar. A carreira o levou a diferentes municípios, mas não interrompeu sua ligação com a cultura gaúcha. Ao contrário, ao longo das décadas, Horacy participou da organização, reativação e fortalecimento de entidades tradicionalistas em diferentes municípios.
Em Tenente Portela, participou da reativação do CTG Sentinela da Fronteira, entidade da qual foi patrão por cinco vezes. Também teve participação na organização regional do tradicionalismo e na criação da 20ª Região Tradicionalista. Em 2019, recebeu uma das maiores distinções de sua trajetória ao ser escolhido para fazer o acendimento da Chama Crioula do Rio Grande do Sul.
Recentemente, durante a sessão solene realizada na 15ª edição do Acampamento Farroupilha, Horacy voltou a ser homenageado por sua caminhada. Na entrevista à série Nossa Terra, Nossa Gente, ele relembra a infância, os tempos de tropeiro, a chegada a Tenente Portela, a carreira militar, a formação da família e as décadas dedicadas ao tradicionalismo.
Folha Popular – Horacy, para começarmos, conte um pouco sobre sua infância, onde o senhor nasceu, como era sua família e quais são as primeiras lembranças que guarda daquela época?
Horacy – Eu nasci em 30 de março de 1938, no município de Palmeira das Missões, no distrito de Campo Novo. Morei em Campo Novo até os seis anos de idade. Depois, nós mudamos com meu pai para Crissiumal, onde ficamos por alguns anos. Em 1956, meu pai comprou uma terra aqui em Derrubadas e, em 1958, viemos morar nessa terra. Eu já estava com 18 anos.
FP – Antes de chegar definitivamente a esta região, o senhor também teve uma experiência muito marcante ainda jovem, trabalhando como tropeiro. Como foi esse período?
Horacy – Dos 14 aos 16 anos trabalhei como tropeiro com um tio meu. Nós conduzíamos tropas de mulas. Eram tropas grandes, de 70, 80 mulas. Saíamos de uma região para outra, trazendo os animais para a região da serra colonial e até a entrada de Santa Catarina, onde eram vendidos. Eu era muito jovem, mas já trabalhava, laçava e acompanhava toda aquela movimentação. Foi uma época que ficou muito marcada na minha vida.
FP – E foi justamente nesse período de tropeiro que o senhor conheceu Tenente Portela?
Horacy – Sim. Eu conheci Portela em 1954. Era ainda piazote. Nós acampamos aqui no Oito, durante uma das viagens com a tropa. Depois, vim morar definitivamente com minha família em 1958. Naquele tempo, Portela era muito diferente do que é hoje. Tinha a rodoviária e a prefeitura, mas não havia calçamento. Era tudo estrada de chão e muita roça.
FP – O senhor chegou jovem ao município e logo depois iniciou outra etapa importante de sua vida, no Exército e, posteriormente, na Brigada Militar. Como começou essa trajetória?
Horacy – Com 18 anos fui para o Exército. Fiquei 11 meses, quase 12 meses, e fiz o curso de cabo e o curso de sargento. Depois que saí do Exército, ainda trabalhei alguns meses com meu pai na colônia. Em 1961, entrei para a Brigada Militar. Fiz o curso de polícia em Passo Fundo e, em setembro daquele ano, fui designado para vir para Tenente Portela.
FP – O que a carreira militar representou na sua formação pessoal?
Horacy – Eu acho que foi muito importante. Tive bastante conhecimento e gostava de ser militar. Usei essa profissão como parte da minha vida. Passei por diferentes lugares e tive experiências que contribuíram muito para a minha formação. Em 1961, quando voltei para Portela, também vivi aquele período da Legalidade em Passo Fundo. Foram momentos importantes da história e da minha própria vida.
FP – Em meio à carreira militar, o senhor também constituiu sua família. Como foi essa fase?
Horacy – Eu me casei em 1964, com Madalena Ferrari Santos. Tivemos o Aurélio, o Diovanir, o Maninho e a Solange. Também criamos uma sobrinha minha como filha, a Lúcia, que é a mais velha e que nós consideramos como filha. Tenho três netas e dois netos. Ainda não tenho bisnetos. A primeira neta, filha do Aurélio, está agora entrando nessa nova etapa da vida.
FP – O senhor sempre manteve uma ligação muito forte com o tradicionalismo. De onde veio essa paixão pela cultura gaúcha?
Horacy – Isso veio da família. Meu avô sempre foi muito gaúcho, andava pilchado. Também tive a influência dos meus tios e de toda aquela vida de tropeiro e do campo. Fui me criando nesse ambiente. Com 15 anos já andava pilchado. Então, o tradicionalismo foi entrando na minha vida naturalmente, pela convivência e pelos ensinamentos que recebi dentro da família.
FP – Na década de 1960, o senhor participou da organização de entidades tradicionalistas. Como aconteceu a reativação do CTG Sentinela da Fronteira?
Horacy – Quando voltei para Portela, o Sentinela da Fronteira não estava mais funcionando. Em 1968, eu era preparador físico do Miraguai e, depois de um treino, comecei a conversar com o sargento Pedro, o Nenê Soprano e o Adalberto Mota, o Vermelho. Surgiu a ideia de fundar novamente o CTG. Fizemos uma reunião e decidimos aproveitar o que ainda existia do antigo Sentinela. Encontramos uma gaita velha e o estatuto. Organizamos a documentação, elegemos uma patronagem e reativamos o CTG.
FP – O senhor acabou exercendo a função de patrão por cinco vezes. O que lembra daquele período de reconstrução do CTG?
Horacy – Foi um trabalho de muita gente. Em 1970, quando o sargento Pedro foi eleito patrão, eu era tesoureiro. Começamos a trabalhar para comprar a área onde hoje está a sede do Sentinela. Era um galpão de fabricação de tijolos. Fizemos negociação, compramos o terreno e criamos títulos patrimoniais para ajudar a pagar. A comunidade ajudou muito. Tinha gente carregando tijolo, ajudando na obra, dando uma mão. Depois reformamos e organizamos a sede. Em 1972 fui eleito patrão pela primeira vez. Fui reeleito em 1973 e, depois, novamente entre 1975 e 1978. Foram cinco anos de patronagem.
FP – Sua atuação no tradicionalismo ultrapassou Tenente Portela e chegou a diferentes municípios. Como essa trajetória continuou?
Horacy – A carreira militar me levou para outros lugares. Em 1978 fui para Santa Maria fazer o curso de formação de sargento. Depois fui para Passo Fundo e, em 1979, para Ilópolis, onde fiquei um ano. Lá também trabalhei pelo tradicionalismo. Ajudei na fundação de uma entidade em Ilópolis e incentivei a organização de outros CTGs, como o Lança Crioula, de Anta Gorda, e o Querência Xucra, de Putinga. Em 1983 ou 1984 fui escolhido coordenador da 14ª Região Tradicionalista.
FP – O senhor também teve participação na criação da 20ª Região Tradicionalista. Como surgiu essa proposta?
Horacy – Em um encontro de patrões em Três Passos, apresentamos uma proposta para desmembrar aquela região da 3ª Região Tradicionalista, porque a distância era muito grande. Na época, eu havia filiado o Sentinela da Fronteira ao MTG e ele era um dos poucos, ou o único daquela região, que tinha essa filiação. A proposta foi levada adiante e, em janeiro de 1985, foi apresentada no Congresso de São Borja e aprovada. Depois, a 20ª Região Tradicionalista foi criada e instalada em Santo Augusto, tendo o sargento Pedro como primeiro coordenador.
FP – Em 2019, depois de tantas décadas de dedicação, o senhor foi escolhido para fazer o acendimento da Chama Crioula do Rio Grande do Sul. O que aquele momento representou?
Horacy – Para mim foi um grande orgulho. Eu amo a cultura do Rio Grande do Sul e, para um tradicionalista, receber uma missão dessas é muito significativo. A escolha passou pelos dois CTGs do município, depois pela 20ª Região e pelo MTG. Eu divido essa conquista com toda a minha família, porque minha esposa sempre esteve ao meu lado, dando força, e meus filhos também me acompanharam muito. Muitas vezes eles viajavam comigo e participavam das atividades.
FP – Recentemente, durante a sessão solene da 15ª edição do Acampamento Farroupilha, o senhor recebeu mais uma homenagem pela sua trajetória. O que passou pela sua cabeça naquele momento?
Horacy – Eu já estava até estranhando, porque depois daquela homenagem da Chama Crioula vieram várias outras. Fui homenageado em diferentes momentos e lugares. Recebi homenagens na inauguração do Parque do Rodeio, também pelos 50 anos do município e, agora, novamente durante o Acampamento Farroupilha. A gente olha para trás e percebe que são muitos anos de caminhada e muitas coisas que ficaram registradas.
FP – Depois de uma vida dedicada à família, ao trabalho, à Brigada Militar e principalmente ao tradicionalismo, que ensinamento o senhor gostaria de deixar para os jovens e para quem tem hoje a responsabilidade de manter viva a cultura e a história da nossa terra?
Horacy – O que eu aconselho é que todos os pais levem seus filhos para o CTG. O CTG é um centro social, um centro cultural e também um centro de formação de cidadãos. As crianças que participam das jornadas artísticas e dos eventos culturais não vão se arrepender, porque ali vão formar uma família digna.
Em vez de ficarem na rua nos momentos de folga, podem ir para o CTG aprender alguma coisa da nossa cultura. A tradição não pode morrer. Hoje a gente vê a quantidade de crianças e jovens participando das jornadas e dos eventos e isso mostra que existe futuro. Quando nós começamos, era muito diferente. Foi com muita dificuldade e poucas pessoas acreditavam. Hoje, a nossa cultura tradicionalista está muito mais valorizada.
Para manter essa tradição viva, as crianças precisam fazer parte dela. Eu tive raiz para isso, tive ensinamento dentro da família, principalmente dos meus avós e das pessoas do campo. É essa continuidade que precisamos garantir.
FP – Para encerrarmos, há algo mais que o senhor gostaria de deixar registrado?
Horacy – Quero agradecer também o reconhecimento da imprensa, a vocês, que sempre deram cobertura aos eventos dos quais participei. Isso aconteceu com a Chama Crioula e também com as homenagens que venho recebendo. A gente fica muito agradecido quando vê que aquilo que fez durante a vida também é lembrado.
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