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Dez razões para entender por que é necessário revogar o Novo Ensino Médio

Dez razões para entender por que é necessário revogar o Novo Ensino Médio

21/03/2023 11h04Atualizado há 4 anos
Por: Júlio Santos
Primeiras manifestações pela revogação da lei do Novo Ensino Médio começaram no dia 15 em várias partes do país - Foto Aloísio Morais
Primeiras manifestações pela revogação da lei do Novo Ensino Médio começaram no dia 15 em várias partes do país - Foto Aloísio Morais

Na terceira série do ensino médio, os alunos da escola pública paulista passaram a ter, por semana, apenas três aulas de Língua Portuguesa e duas de Matemática. Todas as demais matérias são de disciplinas dos itinerários com quase nada de conteúdos. ENQUANTO ISSO, NA MESMA SÉRIE, OS FILHOS DA CLASSE MÉDIA E ALTA PASSAM A TER AULAS DE REFORÇO, REVISÃO E SIMULADOS NAS AULAS REGULARES, ALÉM DE FAZEREM CURSINHOS NO CONTRATURNO PARA PODEREM SE PREPARAR PARA O ENSINO SUPERIOR.

  1. Essas disciplinas dos itinerários são de assuntos bem gerais e vagos. Pelo Brasil, já foram identificados temas como ‘Brigadeiro caseiro’, ‘Mundo PET’, ‘RPG’ etc. Em São Paulo, na parte diversificada, há desde Empreendedorismo (obrigatório) até eletivas para ensinar maquiagem.
  2. Se uma única escola conseguir oferecer os 11 itinerários formativos propostos em São Paulo, realmente deixando o estudante escolher qual ele quer cursar, então A ESCOLA TERÁ QUE OFERECER 276 DISCIPLINAS POR SEMANA. Não há gestor escolar que administre isso. Não há nem espaço físico para comportar as horas de estudo e de preparo de aulas destes professores nas escolas.
  3. Além disso, não há professor formado para essas 276 disciplinas dos itinerários. Por isso, as escolas oferecem poucos itinerários e, mesmo assim, estão contratando todo tipo de profissional sem formação para dar aulas para adolescentes (que é um dos trabalhos que mais exigem especialização no mundo todo): dentistas, administradores de empresas, bacharel em direito, engenheiros etc. Esses profissionais têm implorado por material e formação aos diretores de escola para seguirem com as aulas.
  4. Os professores que têm licenciatura e dão aulas nas redes fogem o quanto podem dessas disciplinas dos itinerários, preferindo dar aulas dos assuntos que estudaram. Porém, como a quantidade de aulas de suas matérias foi reduzida, eles pegam muito mais turmas para completar a jornada, aumentando enormemente seu cansaço, tornando inviável conhecer seus alunos.
  5. Como é pequena a quantidade de aulas das disciplinas desses itinerários, um mesmo profissional chega a receber a tarefa de ministrar aulas de até dez disciplinas diferentes por semana, inclusive para as mesmas turmas. Os alunos de uma mesma turma sequer sabem qual é a disciplina que o professor ministra em determinado momento. Imagine a jornada deste professor: dez aulas diferentes para preparar, dez planos de aula, dez formas de avaliar etc.
  6. Os diretores estão há meses tentando atribuir aulas dessas disciplinas, sem sucesso. Muitos profissionais aceitam pegá-las e desistem quando entendem o que é para fazer na prática. No ano passado, em agosto, quase 30% dessas aulas ainda estavam sem professor na rede estadual paulista.
  7. Essa parte diversificada do currículo tem, supostamente, o objetivo de preparar para o mundo do trabalho. Ocorre que, para a maioria das profissões, é necessário fazer estágio, cursar determinados conteúdos, além de outras regulações profissionais. Nada disso é proposto na reforma.
  8. As escolas privadas driblam a reforma com aumento de horas na escola ou colocando os mesmos conteúdos que davam antes, mas com outros nomes de disciplinas. Assim, há registros de disciplinas dos itinerários como “química olímpica”, “biologia prática”, “linguística olímpica”, “história da arte” etc.
  9. Com a reforma do ensino médio, nenhuma escola do Brasil tem o mesmo currículo, nem que estejam numa mesma rua.

Por isso, há uma revolta generalizada dos alunos, professores e gestores com essa reforma, que é defendida apenas pelas fundações empresariais e pelos secretários de educação que, em sua maioria, são muito próximos dessas mesmas fundações (vários ex-funcionários delas). A criação de tantas disciplinas, sem nenhum aumento de verba para dar condições de infraestrutura e preparo para os professores e gestores, parece ter o objetivo de vender materiais e cursos que essas mesmas fundações elaboraram, além, é claro, de evitar que os mais pobres ascendam para determinadas carreiras mais valorizadas ou para o ensino superior.

Em suma, é a barbárie.

Fonte: Jornalistas Livres - Por José Alves, professor da Unifesp

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