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O rock errou: o triste fim da geração 80 – Por Francisco Fernandes Ladeira

O rock errou: o triste fim da geração 80 – Por Francisco Fernandes Ladeira

27/03/2023 17h42Atualizado há 4 anos
Por: Júlio Santos
Talvez os músicos da chamada geração 80 fossem apenas “rebeldes sem causa”, lembrando uma letra do Ultraje a Rigor. Roger com o Ultraje a Rigor e Lobão. Créditos: Facebook
Talvez os músicos da chamada geração 80 fossem apenas “rebeldes sem causa”, lembrando uma letra do Ultraje a Rigor. Roger com o Ultraje a Rigor e Lobão. Créditos: Facebook

Como explicar o fato de jovens que iniciaram suas carreiras musicais ainda durante a ditadura, que condenavam a repressão em suas canções e, assim como a letra do Ira!, “queriam lutar, mas não com essa farda”, terem se transformado em sessentões que apoiam magistrados tendenciosos e políticos com posicionamentos abertamente fascistas, favoráveis a volta do regime militar? Os Engenheiros do Havaí deram o prognóstico: “o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante e fascinada”. Talvez os músicos da chamada geração 80 fossem apenas “rebeldes sem causa”, lembrando uma letra do Ultraje a Rigor.

Falando em Ultraje, saber que seu vocalista Roger Moreira apoiou as candidaturas de Jair Bolsonaro ao Planalto, em 2018 e 2022, nos leva a constatar que realmente ele é o que cantava nos anos 80: “inútil” que “não sabe escolher o presidente”. Nessa mesma linha, Lobão também apoiou o “mito” que, remetendo à música do “Uns e Outros”, “prolifera ódio, destruição, morte, discórdia, ganância e guerra”.

Aliás, o ex-baterista da Blitz, citado no início desse texto, talvez tenha a trajetória mais contraditória entre os músicos de sua geração. Se, na eleição presidencial de 1989, Lobão desafiava a poderosa Rede Globo, fazendo campanha para a candidatura Lula contra Fernando Collor, em pleno Domingão do Faustão, e, nos anos 1990 e 2000, enfrentava a indústria fonográfica; hoje, o “Velho Lobo” nada mais é do que uma figura caricata, que fica despejando ódio ao lado de outras personalidades também caricatas, como Luiz Felipe Pondé e Danilo Gentili, representantes máximos da “babaquice, tolice e caretice”, que o mesmo Lobão dizia estar cansado na letra de “Vida Louca Vida”. “Decadence” e sem “elegance”.

Enquanto, na década de 80, os Titãs protestavam contra o “Estado Violência”, que não nos deixava “pensar”, “sentir” e “querer”, atualmente, seus colegas de geração, Evandro Mesquita, João Barone e Dinho Ouro Preto, elogiam o autoritário ex-juiz Sérgio Moro (aquele que “não respeita a Constituição, mas acredita no futuro da nação”, versos exaustivamente cantados pelo próprio vocalista do Capital Inicial).

Muitos analistas relacionam o conservadorismo da geração 80 à origem social de seus músicos. Como bons indivíduos da classe média alta, enquanto jovens, se rebelaram contra seus pares, se posicionando a favor da “plebe rude”. Depois de velhos, como bons “filhos ingratos arrependidos”, retornaram aos interesses de seus iguais.

Evidentemente, nem todos os roqueiros da década de 1980 aderiram ao conservadorismo. Nomes como Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Leoni ainda mantêm posicionamentos democráticos (estaria este último fazendo jus ao nome de sua ex-banda, “Heróis da Resistência”?).

No entanto, as exceções não são suficientes para refutar a tese de que o rock nacional dos anos 80, de forma geral, encaretou. Aqueles garotos “que queriam mudar o mundo”, agora compactuam com o que há de mais retrógrado no país, ou, no máximo, “agora assistem a tudo em cima do muro”, como faz Paulo Ricardo. O Camisa de Vênus (do negacionista Marcelo Nova) já havia cantado a pedra: “isso é só o fim, mas isso é só o fim”.

Fonte: Revista Fórum - Por: Francisco Fernandes Ladeira, que é doutorando em Geografia pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de A ideologia dos noticiários internacionais (CRV).

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