
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
A política internacional recente revelou como decisões apressadas e estratégias mal implementadas podem redefinir narrativas globais. O Irã, com sua capital Teerã como centro de resistência, soube explorar os erros dos Estados Unidos e a exposição de Israel em um cenário cada vez mais conturbado.
Trump aplicou à diplomacia global a mesma lógica empresarial que utilizava em seus empreendimentos privados. Confiante em sua capacidade empresarial usou comunicação direta, marketing pessoal e negociações rápidas. Essa abordagem, embora eficaz em acordos pontuais, mostrou-se equivocada em temas geopolíticos de longo prazo. No comércio privado Trump é um tubarão do empreendedorismo, já na diplomacia internacional é um lambari na água salgada.
A escalada militar sem objetivos claros e a oscilação entre ameaças e recuos minaram a credibilidade dos EUA. O resultado foi o isolamento diplomático e a abertura de espaço para que Teerã se reposicionasse como ator legítimo, não apenas como alvo da narrativa ocidental de “terrorismo”. O Irã, que vinha sendo pintado como o país terrorista, desalmado, sem compaixão, virou vítima de um ataque covarde e traiçoeiro. Juntando essa impressão que a comunidade internacional absorveu, com a imagm desgastada de Israel, pelo genocídio em Gaza, veio à tona a resposta do Irã, como uma resposta justa.
Israel, ao alinhar-se automaticamente às decisões de Trump, herdou parte das consequências negativas, está sendo crivado de mísseis. A expansão de assentamentos reforçaram sua exposição internacional. Além disso, a confiança quase absoluta no sistema de defesa conhecido como Domo de Ferro começou a ser questionada. A narrativa de invulnerabilidade foi abalada por ataques assimétricos e pela percepção de que a tecnologia, por si só, não garante estabilidade política ou diplomática.
Nesse contexto, o Irã demonstrou paciência estratégica. Em vez de reagir de forma imediata, esperou o desgaste dos adversários para contra-atacar em momentos de maior fragilidade. Essa postura pode ser comparada a um Ippon no judô: um golpe limpo e decisivo, que encerra a disputa pela eficácia técnica e pela legitimidade. Ao mesmo tempo, quando recorre a ações indiretas por meio de aliados como Hezbollah ou milícias regionais, o Irã aplica golpes mais próximos do Krav Magá: pragmáticos, duros e fora das regras tradicionais, mas igualmente eficazes para garantir sobrevivência e influência.
O contra golpe ainda não terminou e, por isso não se sabe qual será o seu final, mas se o Irã era, realmente, um país terrorista, como diziam, os EUA fizeram a maior bobagem histórica de suas vidas, abriram a porteira para que usassem seus mísseis balísticos de forma indiscriminada por todo o Oriente Médio e, ainda, boicotar o transporte de petróleo, atingindo toda a economia mundial.
A combinação de erros estratégicos dos EUA e de Israel com a paciência calculada do Irã produziu uma inversão da narrativa. O país que antes era visto como “terrorista” passou a se apresentar como força de legítima defesa, enquanto seus adversários enfrentam o retorno de atitudes superficiais e decisões precipitadas. O tabuleiro geopolítico mostra que, na diplomacia, não basta força ou tecnologia: é a consistência, a credibilidade, timing e estratégia para definir quem aplicará o golpe decisivo.
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