
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Durante séculos, o "fim do mundo" foi narrado como uma catástrofe inevitável, um momento em que tudo se encerraria de forma súbita e definitiva. Essa ideia, presente em religiões, mitologias e até em previsões científicas, moldou o imaginário coletivo e alimentou medos profundos. Mas hoje, muitos pensadores afirmam: o fim do mundo já passou não como evento catastrófico, mas como narrativa cultural.
Falar que o fim do mundo já passou significa que a ideia de um colapso absoluto perdeu força. Em vez de a humanidade continuar esperando por um apocalipse, pois vivemos em meio a crises ambientais, sociais, tecnológicas contínuas, passaríamos a pensar em como solucionar essas crises. O "fim" não é mais um destino único, mas uma sucessão de desafios que já nos colocaram diante de escombros simbólicos de um velho mundo catastrófico.
Se passarmos a pensar que o fim do mundo foi um grande terrorismo para amedrontar a humanidade poderíamos sair da inércia e começarmos a agir com menos medo do futuro e com mais responsabilidade pelo que foi feito até aqui com a natureza e conosco mesmo, enquanto humanidade.
Muitos mitos e dogmas cairiam e a prisão psicológica que uma grande parcela das pessoas do mundo vive, também não se sustentaria mais e entraríamos em um processo de transformação, mais atentos às mudanças climáticas e à desigualdade social.
Os principais autores que já se manifestaram sobre esse tema nos dão a linha para a quebra desse paradigma e a construção de uma nova visão:
“O apocalipse já não é um evento futuro, mas uma condição permanente de saturação de imagens e sentidos. O fim já aconteceu no plano simbólico”. Jean Baudrillard
“O apocalipse é sempre uma construção discursiva. Cada anúncio de fim é apenas texto, não realidade”. Jacques Derrida
“Vivemos em estado de emergência permanente. O apocalipse não é um evento único, mas uma sucessão de crises”. Peter Sloterdijk
“Devemos abandonar narrativas de fim absoluto e pensar em continuar com o problema”. Donna Haraway
O fim do mundo, como mito, se não passou devia ter passado. O que resta é a chance de reconstruir, de transformar os escombros em alicerces para um futuro mais justo e sustentável. Não vivemos o fim, mas o começo de uma nova história, e essa história depende de cada sobrevivente desse universo simbólico de terror e apocalipse.
Mudar o verbo pode ser o começo de construção de um novo mundo onde a espera não seja mais argumento para reforçar mitos, dogmas e a própria inércia da humanidade, que se acostumou a esperar um fim e, até mesmo, a desejar a própria aniquilação.
Sensação
Vento
Umidade