
De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos
Nas últimas décadas, assistimos à ascensão de grupos políticos que operam de maneira pragmática, instrumentalizando instituições e narrativas culturais para alcançar poder. A democracia liberal, já marcada por fragilidades, passa a ser tratada como ferramenta descartável: útil enquanto legitima o poder, mas atacada quando limita sua expansão. Nesse contexto, a corrosão institucional deixa de ser um efeito colateral e se transforma em estratégia deliberada, uma verdadeira moeda de troca para líderes e movimentos que buscam ascensão social e econômica.
A lógica desses grupos é clara: tribunais, parlamentos e imprensa são constantemente questionados, minando a confiança pública e criando terreno fértil para o poder personalista. A narrativa de ruptura, que se apresenta como combate ao “sistema” ou à “velha política”, constrói a ilusão de que apenas eles representam o povo verdadeiro. A ideologia, por sua vez, é flexível e adaptável, moldada conforme o público e o momento, sem compromisso com coerência doutrinária. O objetivo central não é a construção de um projeto nacional, mas sim a ocupação de espaços de poder e a captura de recursos econômicos.
A guerra cultural funciona como motor emocional dessa estratégia. Inspirados por ideólogos como Steve Bannon e Olavo de Carvalho, esses movimentos constroem inimigos comuns como “marxismo cultural”, as elites políticas e a imprensa, mobilizando ressentimentos sociais. A desinformação, disseminada em larga escala por redes sociais e aplicativos de mensagens, corrói consensos e cria caos informativo. A polarização extrema reduz a política a um jogo de “nós contra eles”, inviabilizando negociações e compromissos típicos da democracia. Nesse cenário, a fragilidade institucional é explorada como recurso: quanto mais corroídas as bases democráticas, maior o espaço para o poder pragmático e para o alpinismo social.
As consequências para a governança são profundas. A destruição da confiança institucional gera instabilidade e obriga forças sociais democráticas a se aglutinarem para oferecer uma mínima direção ao debate público. Partidos antes rivais unem-se em frentes amplas para proteger regras básicas do jogo democrático, criando barreiras contra retrocessos autoritários. Essa união, no entanto, é frágil e muitas vezes reativa, garantindo apenas uma governança mínima, sem projeto de longo prazo. Ainda assim, é nesse esforço que se tenta recolocar temas como saúde, educação e trabalho no centro do debate, em contraste com a guerra cultural que domina o espaço público.
A política contemporânea mostra, portanto, que a corrosão das instituições virou moeda de troca para grupos pragmáticos que visam poder e ascensão social. Democracia, partidos e imprensa são tratados como ferramentas descartáveis, enquanto narrativas de ódio e desinformação mobilizam massas em torno de inimigos imaginários. Cabe às forças sociais democráticas transformar sua defesa em projeto, capaz de reconstruir a confiança pública e oferecer alternativas concretas diante da lógica destrutiva do populismo pragmático. Somente assim será possível reverter a tendência de erosão institucional e resgatar a governança como prática voltada ao bem comum, e não como palco de disputas pelo poder a qualquer custo.
Sensação
Vento
Umidade