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Um Gigante do Pensamento

“Compreender a vida exige religar os saberes e aceitar a complexidade como condição humana.”

De Olho na Ideia

De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos

13/06/2026 15h54
Por: Júlio Santos
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Edgar Morin, falecido aos 104 anos, deixou um legado intelectual que atravessou gerações e se consolidou como uma das maiores contribuições ao pensamento humano contemporâneo. Sua obra monumental O Método, construída ao longo de quase três décadas e publicada em seis volumes entre 1977 e 2004, é a síntese de sua visão sobre a complexidade da vida e do conhecimento. Morin acreditava que a realidade não pode ser compreendida em partes isoladas, mas sim como um tecido de interações, contradições e incertezas.
A teoria da complexidade, núcleo de seu pensamento, propõe que os fenômenos humanos, sociais e naturais devem ser analisados de forma integrada. Para ele, uma crise ambiental não é apenas um problema da biologia, mas envolve economia, política, cultura e ética. Da mesma forma, o ser humano não pode ser reduzido a corpo ou mente, mas deve ser entendido como uma unidade que reúne emoções, história, cultura e biologia. Essa visão multidimensional combate o reducionismo e a fragmentação do saber, defendendo que ciência e humanidades precisam dialogar.
Morin sistematizou princípios fundamentais para esse pensamento: a dialogia, que reconhece a complementaridade entre opostos; a recursividade, que mostra como efeitos retroagem sobre causas; e a hologramaticidade, segundo a qual cada parte contém o todo e o todo está presente em cada parte. Esses conceitos se tornaram ferramentas para compreender fenômenos complexos e orientar práticas sociais, científicas e educacionais.
Sua contribuição ultrapassou a filosofia e alcançou a educação, especialmente com a obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, publicada pela UNESCO em 1999. Morin defendia que formar cidadãos exige ensinar a lidar com incertezas, interconexões e responsabilidades planetárias. Ele também foi pioneiro em estudos sobre comunicação, cultura de massa e cinema com o cinéma vérité.
A longevidade de Morin, que chegou aos 104 anos, reforça sua imagem como pensador incansável, capaz de atravessar o século XX e XXI mantendo vitalidade intelectual. Sua ideia do “último humano secular” sintetiza sua visão: um ser consciente de sua fragilidade, mas também de sua responsabilidade coletiva e planetária. Esse humano não se refugia em certezas absolutas, mas aceita a complexidade da vida e busca soluções compartilhadas.
Em tempos de polarização e crises globais, o legado de Morin é um convite à humildade intelectual e à coragem ética. Ele não ofereceu respostas fáceis, mas uma orientação: a complexidade como caminho para que o humano secular seja, ao mesmo tempo, consciente de si e solidário com o mundo. Sua obra permanece indispensável para enfrentar os desafios do presente e do futuro, lembrando-nos que compreender a vida exige religar os saberes e cultivar a compreensão mútua.

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