Dando continuidade à série de entrevistas com profissionais e médicos do Hospital Santo Antônio, a Folha Popular conversa nesta edição com o médico Rodrigo Rocha Rodrigues, especialista em coloproctologia. Formado em Medicina no Rio de Janeiro, com especialização em cirurgia geral e posteriormente em coloproctologia, o profissional atua há cerca de um ano na região. Na entrevista, ele fala sobre sua trajetória, os principais problemas tratados pela especialidade e a importância do diagnóstico precoce.
Folha Popular - Para começar, conte um pouco sobre sua formação médica e o caminho que percorreu até se especializar em proctologia. O que o levou a escolher essa área da medicina?
Rodrigo Rocha Rodrigues - Inicialmente, me formei em Medicina no Rio de Janeiro. Depois fiz minha especialização em cirurgia geral pelo Hospital Municipal Miguel Couto, que é um hospital de porta aberta e recebe muitos casos de trauma, cirurgia de emergência e urgência. Depois de quase três anos formado em cirurgia geral, fui fazer minha especialização em coloproctologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel. Concluí a especialização em coloproctologia há cerca de dois anos. Durante bastante tempo trabalhei como cirurgião no Rio de Janeiro e vim para esta região há quase um ano.
FP - O que é a coloproctologia e quais são os principais problemas de saúde tratados por essa especialidade?
Rodrigo - A coloproctologia trata basicamente do intestino grosso, reto e canal anal. As principais condições que diagnosticamos e tratamos são as doenças orificiais, como hemorroidas, fissuras e fístulas anais. Também atendemos casos relacionados ao HPV e outras infecções sexualmente transmissíveis, além de alterações do cólon, como constipação crônica, dificuldade para evacuar e diarreias crônicas. Também atuamos na prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer colorretal.
FP - Quais são as doenças e queixas proctológicas mais frequentes entre os pacientes atendidos no Hospital Santo Antônio?
Rodrigo - Aqui, basicamente, são as doenças orificiais: doenças hemorroidárias, fissuras e fístulas anais. Também temos casos de constipação e diarreia, mas as doenças orificiais são as que mais aparecem nos atendimentos.
FP - Muitas pessoas ainda sentem vergonha ou constrangimento em procurar um proctologista. Por que é importante superar esse receio e buscar uma avaliação médica?
Rodrigo - Isso é algo que escutamos bastante, principalmente entre os homens. Existe muito receio e também uma confusão com a urologia por causa do toque retal. Mas esse exame também é importante na minha área. Procurar atendimento logo que começam os sintomas permite tratar precocemente e evitar problemas futuros, principalmente quando estamos falando de câncer.
Muitas vezes a pessoa apresenta um sangramento e pensa que é apenas uma hemorroida. Se procurar atendimento cedo, podemos investigar, inclusive com colonoscopia, e fazer um diagnóstico precoce. Isso aumenta muito as possibilidades de tratamento e pode evitar que o paciente precise passar futuramente por tratamentos mais agressivos.
FP - Quantos atendimentos e procedimentos o senhor realiza aproximadamente por mês no Hospital Santo Antônio?
Rodrigo - No atendimento ambulatorial, faço uma média de 200 a 210 atendimentos por mês. Na parte coloproctológica, são aproximadamente 30 a 40 cirurgias. Somando com a cirurgia geral, chego a quase 60 cirurgias por mês.
FP - Quais sinais e sintomas devem servir de alerta para que a pessoa procure um especialista?
Rodrigo - Sangue nas fezes é um dos principais sinais para ficar atento. Também temos o emagrecimento sem causa identificável e a anemia. Isso pode acontecer em qualquer idade, mas principalmente em pacientes acima dos 50 anos. Uma pessoa com anemia ou com sangue oculto nas fezes deve procurar atendimento para investigação, principalmente com colonoscopia.
FP - O sangramento nas fezes é um sintoma que costuma preocupar os pacientes. Quando ele pode estar relacionado a problemas simples e quando é necessário investigar mais profundamente?
Rodrigo - Quando o sangramento aparece isoladamente, sem outros sintomas, como emagrecimento ou anemia, muitas vezes pode estar relacionado a uma doença hemorroidária. Mas, mesmo quando identificamos uma hemorroida, é importante investigar mais profundamente, porque ela pode mascarar um sangramento que venha de outra região.
Hoje, o principal exame para essa investigação é a colonoscopia. Existem outros métodos, como a tomografia e a colonoscopia virtual, mas, quando é encontrada alguma alteração suspeita, como um pólipo ou tumor, normalmente precisamos da colonoscopia para esclarecer o diagnóstico.
FP - Qual é a importância da colonoscopia?
Rodrigo - A colonoscopia é um exame diagnóstico, mas também pode ser terapêutico. Quando encontramos um pólipo, por exemplo, podemos fazer a retirada durante o próprio exame. Isso é algo que outros métodos não conseguem fazer. Dessa forma, podemos retirar uma lesão que futuramente poderia se transformar em um câncer.
FP - O câncer colorretal tem grande importância na saúde pública. Qual é o papel da prevenção e do diagnóstico precoce? Quando a população deve começar o rastreamento?
Rodrigo - O câncer colorretal é bastante prevalente porque pode atingir homens e mulheres. Um ponto positivo é que, quando diagnosticado precocemente, temos boas possibilidades de tratamento e, em muitos casos, nem é necessária uma cirurgia muito agressiva.
Hoje, de acordo com estudos e recomendações internacionais, o rastreamento da população geral é orientado a partir dos 45 anos. Até pouco tempo, essa recomendação era a partir dos 50. Temos encontrado pacientes cada vez mais jovens com câncer avançado.
Em pessoas que possuem histórico familiar, por exemplo, pai, mãe ou irmão que tiveram câncer precocemente, abaixo dos 50 anos, a investigação pode começar 10 anos antes da idade em que o familiar recebeu o diagnóstico. Também existem situações relacionadas a alterações genéticas que exigem uma investigação ainda mais precoce.
FP - Alimentação, hidratação, atividade física e hábitos intestinais influenciam na saúde do intestino? Quais cuidados simples podem ajudar na prevenção?
Rodrigo - A alimentação é muito importante. Uma dieta rica em fibras, com grãos, farelo de trigo, linhaça, chia e aveia, ajuda bastante. Também é importante consumir frutas in natura, além de legumes e verduras.
Tudo isso deve estar associado a uma hidratação adequada. Cerca de três litros de água por dia, dependendo das necessidades de cada pessoa, ajuda no trânsito intestinal e na prevenção de problemas relacionados ao intestino. A atividade física também é fundamental para a saúde do organismo como um todo.
FP - Como funciona o atendimento em coloproctologia no Hospital Santo Antônio e qual orientação o senhor deixaria para quem apresenta sintomas, mas adia a consulta por vergonha?
Rodrigo - Aqui no Hospital Santo Antônio temos um atendimento bastante amplo e conseguimos atender pessoas de toda a região. Inclusive recebemos pacientes de municípios que ficam a mais de 200 quilômetros daqui. Isso é muito positivo, mas também mostra como ainda existe uma carência de profissionais nessa área.
Na coloproctologia, o exame físico é muito importante. Podemos realizar avaliações ambulatoriais e, quando necessário, exames como a retoscopia. O toque retal é simplesmente um exame físico como qualquer outro e não deveria ser motivo de vergonha ou preconceito.
Quanto mais cedo identificarmos e tratarmos uma doença, maiores são as possibilidades de evitar complicações e até cirurgias. Uma fissura, por exemplo, pode muitas vezes ser tratada de forma ambulatorial. No caso das fístulas, frequentemente é necessário tratamento cirúrgico.
O mais importante é deixar de lado esse preconceito e procurar atendimento. Qualquer sintoma merece atenção. Hoje, com os avanços da medicina, conseguimos tratar muitos tumores de reto e canal anal sem a necessidade de cirurgias tão agressivas. O diagnóstico precoce faz toda a diferença para o paciente.
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