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Cheiro da infância

Entre lembranças, brincadeiras e descobertas, a infância revela uma forma única de liberdade que permanece viva na memória.

De Olho na Ideia

De Olho na IdeiaPor: Felipe J. dos Santos

13/09/2026 15h43
Por: Júlio Santos
Fonte: Felipe J. dos Santos
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A infância é talvez o lugar mais bonito da memória. Guarda algumas das lembranças mais felizes e uma sensação de satisfação que parece completa. Quando nos remetemos às coisas boas da vida, quase sempre surge algum cheiro de infância, algum lugar de aconchego, algum doce que nunca mais terá o mesmo gosto.

É na primeira infância, antes do contato mais amplo com o mundo, que ainda não percebemos plenamente que existem os outros e que esses outros passam a fazer parte de uma realidade na qual, muitas vezes, nos sentimos desajustados, diferentes ou inadequados.
Até ali, parece que fazemos parte da natureza. Somos apenas seres vivos, livres, autênticos, sem filtros ou modelos de comportamento. Na infância, somos genuínos porque ainda não existe a preocupação com os grupos, a sociedade, as leis ou as regras de convivência.

Quanto mais entramos no universo do convívio social, mais aprendemos a nos moldar e a fazer concessões para pertencer. Aos poucos, vamos nos adequando a um modo de ser que nos afasta daquela ingenuidade autêntica, quando éramos apenas um projeto em construção.
Passamos a fazer coisas para nos relacionar, frequentar lugares onde todos vão e gostar das coisas que todos gostam, buscando uma identidade junto àqueles que se apresentam como referências e manifestam seus gostos e preferências.

Mas a infância permanece em algum lugar dentro de nós, esperando uma oportunidade para voltar. Ela reaparece naquela alegria marcada na memória: um jogo de bolita, uma brincadeira de esconder, uma corrida de bicicleta ou uma partida de futebol. Uma tarde de sol em um pé de bergamota ou uma aventura de bodoque entre potreiros e banhados.

Sabemos que ela não volta. Aquela infância não era apenas uma tarde, um cheiro ou um aconchego. Era, na verdade, um estado de espírito único, quando não havia necessidade de lógica, razão ou coerência. Não era preciso pensar nos outros, nas leis ou nas exigências da sociedade.

Era um tempo de liberdade plena, porque livre, de verdade, era a cabeça, o pensamento e a perspectiva de um futuro ainda incerto, mas profundamente otimista. Tudo parecia belo, e cada caminho era repleto de esperança e aventura. Até o sol tinha um brilho mais vivo, e a capacidade de perceber a luz parecia mais plena.

Isso nada tem a ver com saudosismo, mas com a constatação de que essa energia somente pode ser vivida daquela maneira, naquele momento único do amadurecimento humano.

Perceber isso é compreender que devemos proporcionar, sempre que pudermos, essa sensação única e impossível de ser resgatada àqueles que estão chegando. Eles merecem sentir, quem sabe, uma das mais intensas experiências de liberdade que terão na vida. Uma sensação tão boa e tão forte que poderá acompanhá-los pela memória durante toda a existência.

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