Nascido em Cotiporã, em 18 de março de 1941, o padre Guido Taffarel chegou a Tenente Portela em 23 de janeiro de 1972, após a ordenação sacerdotal e os primeiros anos de atuação religiosa. Desde então, acompanhou as mudanças no município e a evolução da vida comunitária da paróquia. Ao longo de mais de cinco décadas, participou da formação de lideranças, da organização das comunidades e do fortalecimento da participação dos fiéis. Nesta entrevista à série Nossa Terra, Nossa Gente, ele relembra a trajetória pessoal, as transformações da cidade e as experiências que marcaram sua caminhada junto à comunidade.
Folha Popular - Para começar, conte sobre suas origens, o local onde nasceu e como foi sua infância.
Padre Guido Taffarel - Nasci em Cotiporã, município que se desmembrou de Veranópolis, no dia 18 de março de 1941. Minha família se mudou para Carazinho em 1947, quando eu tinha seis anos. Foi quando comecei a frequentar a escola e a falar português. Até então, em casa, falávamos somente o dialeto italiano, uma tradição que procuro cultivar até hoje.
FP - Como era sua família e qual foi sua posição entre os irmãos?
Padre Guido - Meus pais tiveram 11 filhos, e eu fui o nono. Um dos meus irmãos viveu apenas 13 dias, logo depois do meu nascimento. Hoje, os demais já faleceram. Tenho muitos sobrinhos, mais de 50, e a maioria mora em Pinhal. Minha irmã, que também seguiu a vida religiosa, trabalha no Acre desde 1988.
FP - Quando surgiu a decisão de seguir o sacerdócio e como foi sua formação?
Padre Guido - Em dezembro de 1961, minha família veio morar em Pinhal, que naquela época pertencia ao município de Palmeira das Missões. Eu já estava na faculdade, cursando o segundo ano de Filosofia. Fiz minha formação em Filosofia e Teologia no Seminário Imaculada Conceição, em Viamão, onde estudei durante sete anos.
FP - Quando ocorreu sua ordenação e quais foram os primeiros trabalhos como sacerdote?
Padre Guido - Fui ordenado padre em julho de 1966. Entre 1967 e 1971, trabalhei no seminário de Frederico Westphalen. Depois, no dia 23 de janeiro de 1972, assumi como vigário paroquial em Tenente Portela. Foi o início de uma trajetória que se estende por mais de cinco décadas junto à comunidade.
FP - Quando o senhor chegou a Tenente Portela, como era a cidade e qual era a abrangência da paróquia?
Padre Guido - Naquela época, a paróquia atendia Tenente Portela, Vista Gaúcha e Barra do Guarita. Derrubadas já tinha sua própria paróquia desde 1965. A realidade era diferente da atual, tanto na organização das comunidades quanto na estrutura urbana. A maior parte das capelas que temos hoje já existia quando cheguei, mas algumas foram criadas ao longo dos anos.
FP - O que mais chama a atenção do senhor ao comparar Tenente Portela daquela época com o município de hoje?
Padre Guido - A cidade cresceu muito, tanto em tamanho quanto em estrutura. Quando cheguei, não havia asfalto nas ruas e o calçamento era muito limitado. Aos poucos, o município foi se desenvolvendo. Não lembro exatamente quando foi feito o asfalto na avenida, mas recordo que havia pessoas da Prefeitura acompanhando esse trabalho. A cidade progrediu e aumentou, e a presença do hospital também contribuiu para esse crescimento, especialmente nos últimos anos.
FP - Além das mudanças na área urbana, o senhor também acompanhou transformações importantes no interior. O que mudou ao longo desse período?
Padre Guido - No interior, as famílias ficaram menores e muitos filhos deixaram a agricultura para procurar trabalho em outros lugares. Diversas famílias da região migraram para o Mato Grosso, algumas em grupos e outras por iniciativa própria. Há alguns anos, fui visitar antigos moradores que agora vivem em Barra do Garças, Água Boa e Canarana. Fui especialmente para me encontrar com essas pessoas que saíram daqui e construíram suas vidas em outros lugares.
FP - Como essas mudanças populacionais influenciaram a organização da paróquia e o atendimento às comunidades?
Padre Guido - Atualmente, temos 52 comunidades, algumas que surgiram durante o período em que estive aqui. Também houve crescimento nos bairros. Quando cheguei, não havia capelas nos bairros como temos hoje. Agora, nove bairros contam com uma capela, onde celebramos, em média, uma ou duas vezes por mês. Entre 1977 e 1989, fiquei sozinho como padre na paróquia. Naquele período, levava cerca de 40 dias, às vezes um pouco mais, para visitar todas as comunidades.
FP - Diante dessa realidade, como foi organizar o trabalho religioso e manter a proximidade com as pessoas?
Padre Guido - Um dos grandes motivos de alegria foi acompanhar o crescimento da vida cristã nas comunidades. Naquela época, começou a ser implantada uma nova maneira de celebrar os domingos, que não ficava restrita à oração do terço, mas incluía a liturgia da Palavra e a formação de ministros. As duas primeiras turmas de ministros da paróquia foram preparadas aqui, antes mesmo de existir um trabalho diocesano estruturado para essa formação.
FP - Qual foi a importância da formação de lideranças para o desenvolvimento das comunidades?
Padre Guido - A formação de lideranças sempre foi fundamental. O padre não faz tudo sozinho. Ele coordena as celebrações da missa, mas os ministros, as lideranças e os grupos de família também têm um papel importante na vida da Igreja. Durante muitos anos, os grupos de família foram bastante atuantes nas comunidades do interior e também na cidade. Ajudar as pessoas a assumirem responsabilidades e participarem da vida da Igreja foi uma das grandes motivações para continuar esse trabalho.
FP - O senhor também acompanhou mudanças na educação do município. Como recorda o período em que funcionava o Colégio das Irmãs?
Padre Guido - Quando cheguei, o colégio já não era mais dirigido pelas irmãs, mas continuava funcionando nas proximidades de onde hoje está a Gruta Nossa Senhora de Fátima. A escola passou a ser administrada por leigas, e a paróquia era a entidade mantenedora. Com o tempo, porém, muitas famílias deixaram de ter condições de pagar as mensalidades de uma escola particular. Por esse motivo, a instituição acabou sendo encerrada. Hoje, felizmente, temos escolas públicas no município, que oferecem ensino gratuito à população.
FP - Ao olhar para todos esses anos, quais são as lembranças que mais lhe trazem alegria?
Padre Guido - O crescimento da vida cristã nas comunidades é uma das maiores alegrias. Ver as pessoas assumindo responsabilidades, participando das celebrações e ajudando a construir a vida da Igreja mostra que o trabalho teve continuidade. Também fico feliz quando encontro pessoas que passaram por essa caminhada e que ainda demonstram carinho e consideração.
FP - Depois de tantos anos de convivência com a comunidade, como o senhor percebe o reconhecimento das pessoas pelo trabalho realizado?
Padre Guido - Sou muito agradecido pela atenção, pelo carinho, pelo cuidado e pelo amor que as pessoas demonstram pelos padres. Quando encontro alguém da comunidade, muitas vezes a pessoa faz questão de me abraçar, perguntar como estou e saber da minha saúde. Isso mostra que existe um reconhecimento pelo trabalho realizado. Não é algo que a gente busca como uma necessidade, mas é gratificante perceber que as pessoas guardam essa lembrança.
FP - Para encerrar, que mensagem o senhor deixa à comunidade de Tenente Portela, especialmente aos jovens que estão construindo seu futuro?
Padre Guido - Aos jovens e a toda a comunidade, deixo a mensagem de que Jesus Cristo é quem nos dá força para enfrentar a vida, mesmo diante das dificuldades. Vivemos em um mundo conturbado, e muitos jovens têm enfrentado situações em que encontram dificuldade para enxergar sentido na própria existência. A fé pode ajudar a encontrar esperança e direção. Neste período em que celebramos a novena de Nossa Senhora Aparecida, também podemos olhar para Maria, que enfrentou situações difíceis e continua sendo referência de fé. Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o centro da vida e aquele que lhe dá sentido.
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